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     Poetas Portugueses

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    Maria Ernestina Carvalho
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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Dom Set 26, 2010 2:55 pm

    Oi Alexandre

    Este é um autor que demonstra, no que escreve, o seu desencanto pela vida...


    Bjs.
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    Maria Ernestina Carvalho
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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Dom Set 26, 2010 2:56 pm

    Estátua Falsa

    Só de ouro falso os meus olhos se douram;
    Sou esfinge sem mistério no poente.
    A tristeza das coisas que não foram
    Na minha'alma desceu veladamente.

    Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
    Gomos de luz em treva se misturam.
    As sombras que eu dimano não perduram,
    Como Ontem, para mim, Hoje é distancia.

    Já não estremeço em face do segredo;
    Nada me aloira já, nada me aterra:
    A vida corre sobre mim em guerra,
    E nem sequer um arrepio de mêdo!

    Sou estrêla ébria que perdeu os céus,
    Sereia louca que deixou o mar;
    Sou templo prestes a ruir sem deus,
    Estátua falsa ainda erguida ao ar...

    Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'
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    Alexandre Santos
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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Dom Set 26, 2010 9:02 pm

    Tina:

    É isso mesmo, com poucas palavras exprimes o que sente o autor. Eu lendo via qualquer coisa triste, sempre triste....

    Bjs,

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Qua Set 29, 2010 1:49 pm

    Apoteose

    Mastros quebrados, singro num mar d'Ouro
    Dormindo fogo, incerto, longemente...
    Tudo se me igualou num sonho rente,
    E em metade de mim hoje só moro...

    São tristezas de bronze as que inda choro -
    Pilastras mortas, marmores ao Poente...
    Lagearam-se-me as ânsias brancamente
    Por claustros falsos onde nunca oro...

    Desci de mim. Dobrei o manto d'Astro,
    Quebrei a taça de cristal e espanto,
    Talhei em sombra o Oiro do meu rastro...

    Findei... Horas-platina... Olor-brocado...
    Luar-ânsia... Luz-perdão... Orquideas pranto...

    . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

    - Ó pantanos de Mim - jardim estagnado...

    Mário de Sá-Carneiro, in 'Indícios de Oiro'

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Qui Out 07, 2010 8:18 pm

    Inter-Sonho

    Numa incerta melodia
    Tôda a minh'alma se esconde
    Reminiscencias de Aonde
    Perturbam-me em nostalgia...

    Manhã d'armas! Manhã d'armas!
    Romaria! Romaria!

    . . . . . . . . . . . . . . .

    Tacteio... dobro... resvalo...

    . . . . . . . . . . . . . . .

    Princesas de fantasia
    Desencantam-se das flores...

    . . . . . . . . . . . . . . .

    Que pesadêlo tão bom...

    . . . . . . . . . . . . . . .

    Pressinto um grande intervalo,
    Deliro todas as côres,
    Vivo em roxo e morro em som...

    Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Qui Out 14, 2010 11:20 pm

    António Feijó

    Busto de António Feijó


    António Joaquim de Castro Feijó (Ponte de Lima, 1 de Junho de 1859 - Estocolmo, 20 de Junho de 1917) foi um poeta e diplomata português.
    Fez os estudos liceais em Braga e estudou Direito na Universidade de Coimbra terminando o curso em 1883.
    Em 1886 ingressou na carreira diplomática.
    Exerceu cargos no Brasil (consulados de Pernambuco e Rio Grande do Sul) e, a partir de 1895, na Suécia, bem como na Noruega e Dinamarca.
    Casou em 24 de Setembro de 1900 com a sueca Maria Luisa Carmen Mercedes Joana Lewin (nascida em 19 de Agosto de 1878), cuja morte prematura, em 21 de Setembro de 1915, o viria a influenciar numa temática fúnebre, patente na sua obra.
    Como poeta, António Feijó é habitualmente ligado ao Parnasianismo*.

    *Movimento literário que se originou na França, Paris, representou na poesia o espírito positivista e científico da época, surgindo no século XIX em oposição ao romantismo.

    (retirado da net)

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Qui Out 14, 2010 11:22 pm

    O Livro da Vida

    Absorto, o Sábio antigo, estranho a tudo, lia...
    — Lia o «Livro da Vida» — herança inesperada,
    Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria
    Ao primeiro clarão da primeira alvorada.

    Perto dele caminha, em ruidoso tumulto,
    Todo o humano tropel num clamor ululando,
    Sem que de sobre o Livro erga o seu magro vulto,
    Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.

    Passa o Estio, a cantar; acumulam-se Invernos;
    E ele sempre, — inclinada a dorida cabeça,—
    A ler e a meditar postulados eternos,
    Sem um fanal que o seu espírito esclareça!

    Cada página abrange um estádio da Vida,
    Cujo eterno segredo e alcance transcendente
    Ele tenta arrancar da folha percorrida,
    Como de mina obscura a pedra refulgente.

    Mas o tempo caminha; os anos vão correndo;
    Passam as gerações; tudo é pó, tudo é vão...
    E ele sem descansar, sempre o seu Livro lendo!
    E sempre a mesma névoa, a mesma escuridão.

    Nesse eterno cismar, nada vê, nada escuta:
    Nem o tempo a dobrar os seus anos mais belos,
    Nem o humano sofrer, que outras almas enluta,
    Nem a neve do Inverno a pratear-lhe os cabelos!

    Só depois de voltada a folha derradeira,
    Já próximo do fim, sobre o livro, alquebrado,
    É que o Sábio entreviu, como numa clareira,
    A luz que iluminou todo o caminho andado..

    Juventude, manhãs de Abril, bocas floridas,
    Amor, vozes do Lar, estos do Sentimento,
    — Tudo viu num relance em imagens perdidas,
    Muito longe, e a carpir, como em nocturno vento.

    Mas então, lamentando o seu estéril zelo,
    Quando viu, a essa luz que um instante brilhou,
    Como o Livro era bom, como era bom relê-lo,
    Sobre ele, para sempre, os seus olhos cerrou...

    António Feijó, in 'Sol de Inverno'

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Qui Out 14, 2010 11:26 pm

    Hino à Alegria

    Tenho-a visto passar, cantando, à minha porta,
    E às vezes, bruscamente, invadir o meu lar,
    Sentar-se à minha mesa, e a sorrir, meia morta,
    Deitar-se no meu leito e o meu sono embalar.

    Tumultuosa, nos seus caprichos desenvoltos,
    Quase meiga, apesar do seu riso constante,
    De olhos a arder, lábios em flor, cabelos soltos,
    A um tempo é cortesã, deusa ingénua ou bacante...

    Quando ela passa, a luz dos seus olhos deslumbra;
    Tem como o Sol de Inverno um brilho encantador;
    Mas o brilho é fugaz, — cintila na penumbra,
    Sem que dele irradie um facho criador.

    Quando menos se espera, irrompe de improviso;
    Mas foge-nos também com uma presteza igual;
    E dela apenas fica um pálido sorriso
    Traduzindo o desdém duma ilusão banal.

    Onda mansa que só à superfície corre,
    Toda a alegria é vã; só a Dor é fecunda!
    A Dor é a Inspiração, louro que nunca morre,
    Se em nós crava a raiz exaustiva e profunda!

    No entanto, eu te saúdo e louvo, hora dourada,
    Em que a Alegria vem extinguir, de surpresa,
    Como chuva a cair numa planta abrasada,
    A fornalha em que a Dor se transmuta em Beleza!

    Pensar, é certo, eleva o espírito mais alto;
    Sofrer torna melhor o coração; depura
    Como um crisol: a chispa irrompe do basalto,
    Sai o oiro em fusão da escória mais impura.

    A Alegria é falaz; só quem sofre não erra,
    Se a Dor o eleva a Deus, na palavra que O louve;
    A Alma, na oração, desprende-se da terra;
    Jamais o homem é vão diante de Deus que o ouve!

    E contudo, — ilusão!—basta que ela sorria,
    Basta vê-la de longe, um momento, a acenar,
    Vamos logo em tropel, no capricho do dia,
    Como ébrios, evoé! atrás dela a cantar!

    Mas se ela, de repente, ao nosso olhar se furta,
    Todo o seu brilho é pó que anda no sol disperso;
    A Alegria perfeita é uma aurora tão curta,
    Que mal chega a doirar as cortinas do berço.

    Às vezes, essa luz, de tão frágil encanto,
    Vem ainda banhar certas horas da Vida,
    Como um íris de paz numa névoa de pranto,
    Crepitação, fulgor duma estrela perdida.

    Então, no resplendor dessa aurora bendita,
    Toma corpo a ilusão, e sem ânsias, sem penas,
    O espírito remoça, o coração palpita
    Seja a nossa alma embora uma saudade apenas!

    Mas efémera ou vã, a Alegria... que importa?
    Deusa ingénua ou bacante, o seu riso clemente,
    Quando, mesmo de longe, ecoa à nossa porta,
    Deixa em louco alvoroço o coração da gente!

    Momentânea ou falaz, é sempre um dom divino,
    Sol que um instante vem a nossa alma aquecer...
    Pudesse eu celebrar teu louvor no meu Hino!
    Momentâneo, falaz encanto de viver!

    O teu sorriso enxuga o pranto que choramos,
    E eu não sei traduzir a ventura que exprimes!
    Nesta sentimental língua que nós falamos,
    Só a Dor e a Paixão têm acordes sublimes!

    António Feijó, in 'Sol de Inverno'


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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Qua Out 20, 2010 6:29 pm

    Hino à Solidão

    Diz-se que a solidão torna a vida um deserto;
    Mas quem sabe viver com a sua alma nunca
    Se encontra só; a Alma é um mundo, um mundo
    [aberto
    Cujo átrio, a nossos pés, de pétalas se junca.

    Mundo vasto que mil existências povoam:
    Imagens, concepções, formas do sentimento,
    — Sonhos puros que nele em beleza revoam
    E ficam a brilhar, sóis do seu firmamento.

    Dia a dia, hora a hora, o Pensamento lavra
    Esse fecundo chão onde se esconde e medra
    A semente que vai germinar na Palavra,
    Cantar no Som, flores na Cor, sorrir na Pedra!

    Basta que certa luz de seus raios aqueça
    A semente que jaz na sua leiva escondida,
    Para que ela, a sorrir, desabroche e floresça,
    De perfumes enchendo as estradas da Vida.

    Sei que embora essa luz nem para todos tenha
    O mesmo brilho, o mesmo impulso criador,
    Da Glória, sempre vã, todo o asceta desdenha,
    Vivendo como um deus no seu mundo interior.

    E que mundo sublime, esse em que ele se agita!
    Mundo que de si mesmo e em si mesmo criou,
    E em cuja criação o seu sangue palpita,
    Que não há deus estranho aos orbes que formou.

    Nem lutas, nem paixões: ideais serenidades
    Em que o Tempo se esvai sob o encanto da Hora...
    O passado e o porvir são ânsias e saudades:
    Só no instante que passa a plenitude mora.

    Sombra crepuscular, que a Noite não atinge,
    Nem a Aurora desfaz: rosicler e luar,
    Meia tinta em que a Alma abre os lábios de Esfinge,
    E o seu mistério ensina a quem sabe escutar.

    Mas então, inundando essa penumbra doce,
    De não sei que sublime esplendor sideral,
    Como se a emanação dum ser divino fosse,
    Deixa no nosso olhar um reflexo imortal.

    Na vertigem que a vida exalta e desvaria,
    Pára alguém para ouvir um coração que bate
    No seio mais formoso, o olhar que se extasia
    Vê o mundo que nele em ânsias se debate?

    É só na solidão que a alma se revela,
    Como uma flor nocturna as pétalas abrindo,
    A uma luz, que é talvez o clarão duma estrela,
    Talvez o olhar de Deus, de astro em astro caindo...

    E dessa luz, a flor sem forma, há pouco obscura,
    Recebe o seu quinhão de graça e de pureza,
    Como das mãos do artista, animando a escultura,
    O mármore recebe a sua alma — a Beleza.

    Se sofrer é pensar, na paz do isolamento,
    Como dum cálix cheio o líquido extravasa,
    A Dor, que a Alma empolgou, transborda em
    [pensamento,
    E a pouco e pouco extingue o fogo em que se
    [abrasa.

    Como a montanha de oiro, a Alma, em seu
    [mistério,
    À superfície nunca o seu teor revela;
    Só depois de sondado e fundido o minério
    Se conhece a riqueza acumulada nela.

    Corações que a Existência em tumulto arrebata!
    Esse oiro só se extrai do minério candente,
    No silêncio, na paz, na quietação abstracta,
    Das estrelas do céu sob o olhar indulgente...

    António Feijó, in 'Sol de Inverno'


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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Dom Out 24, 2010 9:58 pm

    O Amor e o Tempo

    Pela montanha alcantilada
    Todos quatro em alegre companhia,
    O Amor, o Tempo, a minha Amada
    E eu subíamos um dia.

    Da minha Amada no gentil semblante
    Já se viam indícios de cansaço;
    O Amor passava-nos adiante
    E o Tempo acelerava o passo.

    — «Amor! Amor! mais devagar!
    Não corras tanto assim, que tão ligeira
    Não pode com certeza caminhar
    A minha doce companheira!»

    Súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
    Abrem as asas trémulas ao vento...
    — «Porque voais assim tão apressados?
    Onde vos dirigis?» — Nesse momento,

    Volta-se o Amor e diz com azedume:
    — «Tende paciência, amigos meus!
    Eu sempre tive este costume
    De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus!

    António Feijó, in 'Sol de Inverno'



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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Sex Out 29, 2010 1:16 pm

    Hino à Beleza

    Onde quer que o fulgor da tua glória apareça,
    — Obra de génio, flor de heroísmo ou santidade, —
    Da Gioconda imortal na radiosa cabeça,
    Num acto de grandeza augusta ou de bondade,

    — Como um pagão subindo à Acrópole sagrada,
    Vou de joelhos render-te o meu culto piedoso,
    Ou seja o Herói que leva uma aurora na Espada,
    Ou o Santo beijando as chagas do Leproso.

    Essa luz sem igual com que sempre iluminas
    Tudo o que existe em nós de grande e puro, veio
    Do mesmo foco em mil parábolas divinas:
    — Raios do mesmo olhar, ânsias do mesmo seio.

    Alta revelação que, baixando em segredo,
    O prisma humano quebra em ângulos dispersos,
    Como a água a cair de rochedo em rochedo
    Repete o mesmo som, mas em modos diversos.

    É audácia no Herói; resignação no Santo;
    Som e Cor, ondulando em formas imortais;
    No mármore rebelde abre em folhas de acanto,
    E esmalta de candura a flora dos vitrais.

    Ó Beleza! Ó Beleza! as Horas fugitivas
    Passam diante de ti, aladas como sonhos...
    Que importa onde elas vão, doutra força cativas,
    Se o Infinito luz nos teus olhos risonhos?!

    Abrem flores, cantando, ao teu hálito ardente,
    Brilham as aves como estrelas, e as estrelas,
    Como flores enchendo a noite refulgente,
    Deixam-se resvalar sobre quem vai colhê-las...

    És tu que às ilusões dás juventude e forma,
    Tu, que talvez do céu, de onde vens, te recordes
    Quando, a ouvir-nos chorar, a tua voz transforma
    Dissonâncias de dor em imortais acordes.

    Vejo-te muita vez, — luz de aurora ou de raio,—
    Como um gládio de fogo a avançar no horizonte;
    Ou então, em manhãs transparentes de Maio,
    Náiade toda nua a fugir duma fonte.

    Outras vezes, de noite e a ocultas, apareces,
    Como ovelha que Deus do seu redil tresmalha,
    Trazendo no regaço inesgotáveis messes,
    Que Ele por tuas mãos sobre a miséria espalha...

    Pudesse eu revelar-te em estrofes aladas,
    Que partissem ao Sol refulgindo em lavores,
    Com rimas de oiro, em talau e púrpura engastadas,
    Como versos que vão desabrochando em flores!

    Mas a língua não é sumptuosa bastante
    Para nela deixar teu génio circunscrito;
    Trago-te dentro em mim, sinto-te a cada instante,
    E a voz nem mesmo tem a eloquência dum grito!

    Mas se para o teu culto, em esplendor externo,
    Não encontro uma prece altamente expressiva,
    Por ti meu coração arde dum fogo eterno,
    Como chama a tremer de lâmpada votiva!

    António Feijó, in 'Sol de Inverno'

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Seg Nov 08, 2010 8:00 pm

    A Cidade do Sonho

    Sofres e choras? Vem comigo! Vou mostrar-te
    O caminho que leva à Cidade do Sonho...
    De tão alta que está, vê-se de toda a parte,
    Mas o íngreme trajecto é florido e risonho.

    Vai por entre rosais, sinuoso e macio,
    Como o caminho chão duma aldeia ao luar,
    Todo branco a luzir numa noite de Estio,
    Sob o intenso clamor dos ralos a cantar.

    Se o teu ânimo sofre amarguras na vida,
    Deves empreender essa jornada louca;
    O Sonho é para nós a Terra Prometida:
    Em beijos o maná chove na nossa boca...

    Vistos dessa eminência, o mundo e as suas
    [sombras,
    Tingem-se no esplendor dum perpétuo arrebol;
    O mais estéril chão tapeta-se de alfombras,
    Não há nuvens no céu, nunca se põe o Sol.

    Nela mora encantada a Ventura perfeita
    Que no mundo jamais nos é dado sentir...
    E a um beijo só colhido em seus lábios de Eleita,
    A própria Dor começa a cantar e a sorrir!

    Que importa o despertar? Esse instante divino
    Como recordação indelével persiste;
    E neste amargo exílio, através do destino,
    Ventura sem pesar só na memória existe...

    António Feijó, in 'Sol de Inverno'


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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Sex Nov 19, 2010 2:32 pm

    A Armadura

    Desenganos, traições, combates, sofrimentos,
    Numa vida já longa acumulados, vão
    — Como sobre um paul contínuos sedimentos,
    Pouco a pouco envolvendo em cinza o coração.

    E a cinza com o tempo atinge uma espessura
    Que nem os mais cruéis desesperos abalam;
    É como tenebrosa, impávida armadura
    Ou couraça de bronze em que os golpes resvalam.

    Impermeável da Inveja à peçonhenta bava,
    Nela a Calúnia embota os seus dentes ervados;
    Não há braço que possa amolgá-la, nem clava
    Que nesse duro arnês se não faça em bocados.

    E no entanto, através dessas rijas camadas,
    Ou rompendo por entre as juntas da armadura,
    Escorrem muita vez gotas ensanguentadas
    Que o coração verteu dalguma chaga obscura...

    António Feijó, in 'Sol de Inverno'

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Dom Dez 05, 2010 8:22 pm

    Hino à Dor

    Sorri com mais doçura a boca de quem sofre,
    Embora amargue o fel que os seus lábios beberam;
    É mais ardente o olhar onde, como um aljofre,
    A Dor se condensou e as lágrimas correram.

    Soa, como se um beijo ou uma carícia fosse,
    A voz que a soluçar na Desgraça aprendeu;
    E não há para nós consolação mais doce
    Que o regaço de quem muito amou e sofreu.

    Voz, que jamais vibrou num soluço de mágoa,
    Ao nosso coração nunca pode chegar...
    Mas o pranto, ao cair duns olhos rasos de água,
    Torna mais penetrante e mais profundo o olhar.

    Lábio, que só bebeu na fonte da Alegria,
    É frio, como o olhar de quem nunca chorou;
    A Bondade é uma flor que se alimenta e cria
    Dos resíduos que a Dor no coração deixou.

    Em tudo quanto existe o Sofrimento imprime
    Uma augusta expressão... mesmo a Suprema Graça,
    Dando aos versos do Poeta esse esmalte sublime
    Que torna imorredoira a Inspiração que passa.

    É por isso que a Dor, sem trégua nem guarida,
    Dor sem resignação, Dor de estóico ou de santo,
    Só de a vermos passar no tumulto da Vida
    Deixa os olhos da gente enublados de pranto.


    António Feijó, in 'Sol de Inverno'

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Sex Jan 14, 2011 9:05 pm

    ALMADA NEGREIROS



    José Sobral de Almada Negreiros GOSE (Trindade, 7 de Abril de 1893 — Lisboa, 15 de Junho de 1970) foi um artista multidisciplinar, pintor, escritor, poeta, ensaísta, dramaturgo e romancista português ligado ao grupo modernista.

    Uma parte da sua infância foi passada em São Tomé e Príncipe, terra natal da mãe, Elvira Freire Sobral Bristot.
    Depois da morte da mãe, em 1896, foi viver em Portugal; nesta altura, em 1900, o pai é nomeado encarregado do Pavilhão das Colónias na Exposição Universal de Paris, deixando os filhos José e António ao cuidado dos jesuítas no Colégio de Campolide.
    Em 1911, após a extinção do Colégio de Campolide dos Jesuítas e uma breve passagem pelo Liceu de Coimbra, José entra para a Escola Internacional de Lisboa. Nesta escola, consegue um espaço onde irá desenvolver o seu trabalho, publicando, ainda nesse ano, o seu primeiro desenho na revista A Sátira. Publica também o jornal manuscrito A Paródia, onde é o único redactor e ilustrador.
    Em 1913, apresenta, na Escola Internacional de Lisboa, a sua primeira exposição individual, composta de 90 desenhos; aqui trava conhecimento com Fernando Pessoa, com quem edita a Revista Orpheu, juntamente com Mário de Sá Carneiro.
    Almada Negreiros morre em 15 de Junho de 1970, de falha cardíaca, no mesmo quarto do Hospital de São Luís dos Franceses em que também tinha morrido Fernando Pessoa.

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Sex Jan 14, 2011 9:07 pm

    Canção

    A pastorinha morreu, todos estão a chorar.
    Ninguem a conhecia e todos estão a chorar.

    A pastorinha morreu, morreu de seus amôres.
    Á beira do rio nasceu uma arvore e os braços da arvore abriram-se em cruz.

    As suas mãos compridas já não acenam de alêm.
    Morreu a pastorinha e levou as mãos compridas.

    Os seus olhos a rirem já não troçam de ninguem.
    Morreu a pastorinha e os seus olhos a rirem.

    Morreu a pastorinha, está sem guia o rebanho.
    E o rebanho sem guia é o enterro da pastorinha.

    Onde estão os seus amôres? Ha prendas para Lhe dar.
    Ninguem sabe se é Elle e ha prendas para Lhe dar.

    Na outra margem do rio deu á praia uma santa que vinha das bandas do mar. Vestida de pastora p'ra se não fazer notar. De dia era uma santa, à noite era o luar.

    A pastorinha em vida era uma linda pastorinha; a pastorinha mórta é a Senhora dos Milagres.


    Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1'


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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Sex Jan 14, 2011 9:11 pm

    O Echo

    Tão tarde. Adão não vem? Aonde iria Adão?!
    Talvez que fosse á caça; quer fazer surprezas com alguma côrça branca lá da floresta.
    Era p'lo entardecer, e Eva já sentia cuidados por tantas demoras.
    Foi chamar ao cimo dos rochedos, e uma voz de mulher tambem, tambem chamou Adão.
    Teve mêdo: Mas julgando fantazia chamou de nôvo: Adão? E uma voz de mulher tambem, tambem chamou Adão.
    Foi-se triste para a tenda.
    Adão já tinha vindo e trouxera as settas todas, e a cáça era nenhuma!
    E elle a saudá-la ameaçou-lhe um beijo e ella fugiu-lhe.
    - Outra que não Ella chamára tambem por Elle.


    Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1'

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Sex Jan 21, 2011 7:57 pm

    Ruinas

    Pandeiros rôtos e côxas táças de crystal aos pés da muralha.

    Heras como Romeus, Julietas as ameias.
    E o vento toca, em bandolins distantes, surdinas finas de princezas mortas.

    Poeiras adormecidas, netas fidalgas de minuetes de mãos esguias e de cabelleiras embranquecidas.

    Aquellas ameias cingiram uma noite peccados sem fim; e ainda guardam os segredos dos mudos beijos de muitas noites. E a lua velhinha todas as noites réza a chorar: Era uma vez em tempo antigo um castello de nobres naquelle lugar... E a lua, a contar, pára um instante - tem mêdo do frio dos subterraneos.

    Ouvem-se na sala que já nem existe, compassos de danças e rizinhos de sêdas.

    Aquellas ruinas são o tumulo sagrado de um beijo adormecido - cartas lacradas com ligas azues de fechos de oiro e armas reais e lizes.

    Pobres velhinhas da côr do luar, sem terço nem nada, e sempre a rezar...

    Noites de insonia com as galés no mar e a alma nas galés.

    Archeiros amordaçados na noite em que o côche era de volta ao palacio pela tapada d'El-rei. Grande caçada na floresta--galgos brancos e Amazonas negras. Cavalleiros vermêlhos e trombêtas de oiro no cimo dos outeiros em busca de dois que faltam.

    Uma gondola, ao largo, e um pagem nas areias de lanterna erguida dizendo pela briza o aviso da noite.

    O sapato d'Ella desatou-se nas areias, e fôram calça-lo nas furnas onde ninguem vê. Nas areias ficaram as pègadas de um par que se beija.

    Noticias da guerra - choros lá dentro, e crépes no brazão. Ardem cirios, serpentinas. Ha mãos postas entre as flôres.

    E a torre morêna canta, molenga, dôze vezes a mesma dôr.

    Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1'

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Qui Fev 10, 2011 8:13 pm

    Primavera

    O sol vae esmolando os campos com bôdos de oiro.

    A pastorinha aquecida vae de corrida a mendigar a sombra do chorão corcunda, poeta romantico que tem paixão p'la fonte.

    Espreita os campos, e os campos despovoados dão-lhe licença para ficar núa. Que leves arrepios ao refrescar-se nas aguas! Depois foi de vez, meteu-se no tanque e foi espojar-se na relva, a seccar-se ao sol. Mas o vento que vinha de lá das Azenhas-do-Mar, trazia peccados
    comsigo. Sentiu desejos de dar um beijo no filho do Senhor Morgado. E lembrou-se logo do beijo da horta no dia da feira. Fechou os olhos a cegar-se do mau pensamento, mas foi lembrar-se do
    proprio Senhor Morgado á meia noite ao entrar na adega. Abanou a fronte para lhe fugir o peccado, mas foi dar comsigo na sachristia a deixar o Senhor Prior beijar-lhe a mão, e depois a testa... porque Deus é bom e perdôa tudo... e depois as faces e depois a bocca e depois... fugiu... Não devia ter fugido... E agora o moleiro, lá no arraial, bailando com ella e sem querer, coitado, foi ter ao moinho ainda a bailar com ella. E lembra-se ainda - sentada na grande arca,
    e mãos alheias a desapertarem-lhe as ligas e o corpête, emquanto ouve a historia triste do moinho com cincoenta malfeitores... Quer lembrar-se mais, que seja peccado! quer mais recordações do moinho, mas não encontra mais.

    Ah! e o boieiro quando, a guiar a junta, topou com ella e lhe perguntou se vira por acaso uma borboleta branca a voar a muito, uma borboleta muito bonita! Que não, que não tinha visto; mas o boieiro desconfiado foi procurando sempre, e até mesmo por debaixo dos vestidos.

    Como desejava poder ir com todos!

    Não sabe o que sente dentro de si que a importuna de bem estar.

    Teria a borbolêta branca fugido para dentro d'ella?


    Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1'


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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Qui Jun 30, 2011 8:37 pm



    FLORBELA ESPANCA.


    Biografia
    Mesmo antes de seu nascimento, a vida de Florbela Espanca já estava marcada pelo inesperado, pelo dramático, pelo incomum.

    Seu pai, João Maria Espanca era casado com Maria Toscano. Como a mesma não pôde dar filhos ao marido, João Maria se valeu de uma antiga regra medieval, que diz que quando de um casamento não houver filhos, o marido tem o direito de ter os mesmos com outra mulher de sua escolha. Assim, no dia 8 de dezembro de 1894 nasce Flor Bela Lobo, filha de Antónia da Conceição Lobo. João Maria ainda teve mais um filho com Antónia, Apeles. Mais tarde, Antónia abandona João Maria e os filhos passam a conviver com o pai e sua esposa, que os adotam.

    Florbela entra para o curso primário em 1899, passando a assinar Flor d’Alma da Conceição Espanca. O pai de Florbela foi em 1900 um dos introdutores do cinematógrafo em Portugal. A mesma paixão pela fotografia o levará a abrir um estúdio em Évora, despertando na filha a mesma paixão e tomando-a como modelo favorita, razão pela qual a iconografia de Florbela, principalmente feita pelo pai, é bastante extensa.

    Em 1903, aos sete anos, faz seu primeiro poema, A Vida e a Morte. Desde o início é muito clara sua precocidade e preferência a temas mais escusos e melancólicos.

    Em 1908 Antônia Conceição, mãe de Florbela, falece. Florbela então ingressa no Liceu de Évora, onde permanece até 1912, fazendo com que a família se desloque para essa cidade. Foi uma das primeiras mulheres a ingressar no curso secundário, fato que não era visto com bons olhos pela sociedade e pelos professores do Liceu. No ano seguinte casa-se no dia de seus 19 anos com Alberto Moutinho, colega de estudos.

    O casal mora em Redondo até 1915, quando regressa à Évora devido a dificuldades financeiras. Eles passam a morar na casa de João Maria Espanca. Sob o olhar complacente de Florbela ele convive abertamente com uma empregada, divorciando-se da esposa em 1921 para casar-se com Henriqueta de Almeida, a então empregada.

    Voltando a Redondo em 1916, Florbela reúne uma seleção de sua produção poética de 1915 e inaugura o projeto Trocando Olhares, coletânea de 88 poemas e três contos. O caderno que deu origem ao projeto encontra-se na Biblioteca Nacional de Lisboa, contendo uma profusão de poemas, rabiscos e anotações que seriam mais tarde ponto de partida para duas antologias, onde os poemas já devidamente esclarecidos e emendados comporão o Livro de Mágoas e o Livro de Soror Saudade.

    Regressando a Évora em 1917 a poetisa completa o 11º ano do Curso Complementar de Letras, e logo após ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Após um aborto involuntário, se muda para Quelfes, onde apresenta os primeiros sinais sérios de neurose. Seu casamento se desfaz pouco depois.

    Em junho de 1919 sai o Livro de Mágoas, que apesar da poetisa não ser tão famosa faz bastante sucesso, esgotando-se rapidamente. No mesmo ano passa a viver com Antônio Guimarães, casando-se com ele em 1921. Logo depois Florbela passa a trabalhar em um novo projeto que a princípio se chamaria Livro do Nosso Amor ou Claustro de Quimeras. Por fim, torna-se o Livro de Soror Saudade, publicado em janeiro de 1923.

    Após mais um aborto separa-se pela segunda vez, o que faz com que sua família deixe de falar com ela. Essa situação a abalou muito. O ex-marido abriu mais tarde em Lisboa uma agência, “Recortes”, que enviava para os respectivos autores qualquer nota ou artigo sobre ele. O espólio pessoal de Antônio Guimarães reúne o mais abundante material que foi publicado sobre Florbela, desde 1945 até 1981, ano do falecimento do ex-marido. Ao todo são 133 recortes.

    Em 1925 Florbela casa-se com Mário Lage no civil e no religioso e passa a morar com ele, inicialmente em Esmoriz e depois na casa dos pais de Lage em Matosinhos, no Porto.

    Passa a colaborar no D. Nuno em Vila Viçosa, no ano de 1927, com os poemas que comporão o Charneca em Flor. Em carta ao diretor do D. Nuno fala da conclusão de Charneca em Flor, e fala também da preparação de um livro de contos, provavelmente O Dominó Preto.

    No mesmo ano Apeles, irmão de Florbela, falece em um trágico acidente, fato esse que abalou demais a poetisa. Ela aferra-se à produção de As Máscaras do Destino, dedicando ao irmão. Mas então Florbela nunca mais será a mesma, sua doença se agrava bastante após o ocorrido.

    Começa a escrever seu Diário de Último Ano em 1930. Passa a colaborar nas revistas Portugal Feminino e Civilização, trava também conhecimento com Guido Batelli, que se oferece para publicar Charneca em Flor. Florbela então revê em Matosinhos as provas do livro, depois de tentar o suicídio, período em que a neurose se agrava e é diagnosticado um edema pulmonar.

    Em dois de dezembro de 1930, Florbela encerra seu Diário do Último Ano com a seguinte frase: “… e não haver gestos novos nem palavras novas.” Às duas horas do dia 8 de dezembro – no dia do seu aniversário Florbela D’Alma da Conceição Espanca suicida-se em Matosinhos, ingerindo dois frascos de Veronal. Algumas décadas depois seus restos mortais são transportados para Vila Viçosa, “… a terra alentejana a que entranhadamente quero”.

    FONTES:
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    numerodois/tl3.html

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    Coleção “A Obra Prima de Cada Autor” – Editora Martin Claret

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Qui Jun 30, 2011 8:39 pm


    Triste Passeio




    Vou pela estrada, sozinha.
    Não me acompanha ninguém.
    - Num atalho, em voz mansinha:
    “Como está ele? Está bem?”

    É a toutinegra curiosa;
    Há em mim um doce enleio…
    Nisto pergunta uma rosa:
    “Então ele? Inda não veio?”

    Sinto-me triste, doente…
    E nem me deixam esquecê-lo!…
    Nisto o sol impertinente:
    “Sou um fio do seu cabelo…”

    Ainda bem. É noitinha.
    Enfim já posso pensar!
    Ai, já me deixam sozinha!
    De repente, oiço o luar:

    “Que imensa mágoa me invade,
    Que dor o meu peito sente!
    Tenho uma enorme saudade!
    De ver o teu doce ausente!”

    Volto a casa. Que tristeza!
    Inda é maior minha dor…
    Vem depressa. A natureza
    Só fala de ti, amor!

    Florbela Espanca - O Livro D’Ele

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    Última edição por mariajoaomarques em Qui Jun 30, 2011 9:12 pm, editado 2 vez(es)
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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Qui Jun 30, 2011 8:57 pm

    Hoje encontrei no meu baú um livro de poemas de Florbela Espanca.
    Gosto muito dos poemas dela, durante um tempo vou colocar os poemas
    que mais gosto.

    Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
    Do que os homens! Morder como quem beija!
    É ser mendigo e dar como quem seja
    Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

    É ter de mil desejos o esplendor
    E não saber sequer que se deseja!
    É ter cá dentro um astro que flameja,
    É ter garras e asas de condor!

    É ter fome, é ter sede de Infinito!
    Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
    É condensar o mundo num só grito!

    E é amar-te, assim, perdidamente...
    É seres alma, e sangue, e vida em mim
    E dizê-lo cantando a toda a gente!

    Escutem este poema cantado.



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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Qua Jul 27, 2011 8:02 pm



    Fanatismo

    Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
    Meus olhos andam cegos de te ver!
    Não és sequer razão do meu viver
    Pois que tu és já toda a minha vida!
    ...

    E, olhos postos em ti, digo de rastros:
    «Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
    Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...»




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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Sex Set 23, 2011 10:25 pm

    Mais um dos belos poemas de Florbela Espanca.



    A mensageira das violetas, Poemas



    Versos! Versos! Sei lá o que são versos…
    Pedaços de sorriso, branca espuma,
    Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
    Ou pétalas que caem uma a uma…



    Versos!… Sei lá! Um verso é o teu olhar,
    Um verso é o teu sorriso e os de Dante
    Eram o teu amor a soluçar
    Aos pés da sua estremecida amante!



    Meus versos!… Sei eu lá também que são…
    Sei lá! Sei lá!… Meu pobre coração
    Partido em mil pedaços são talvez…



    Versos! Versos! Sei lá o que são versos…
    Meus soluços de dor que andam dispersos
    Por este grande amor em que não crês…

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Qui Dez 08, 2011 10:13 pm



    Eu
    Eu sou a que no mundo anda perdida,
    Eu sou a que na vida não tem norte,
    Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
    Sou a crucificada... a dolorida...

    Sombra de névoa tênue e esvaecida,
    E que o destino amargo, triste e forte,
    Impele brutalmente para a morte!
    Alma de luto sempre incompreendida!...

    Sou aquela que passa e ninguém vê...
    Sou a que chamam triste sem o ser...
    Sou a que chora sem saber por quê...

    Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
    Alguém que veio ao mundo pra me ver,
    E que nunca na vida me encontrou!


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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Sex Mar 15, 2013 6:57 pm

    Bons Amigos - Machado de Assis

    Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
    Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
    Amigo a gente sente!

    Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
    Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
    Amigo a gente entende!

    Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
    Porque amigo sofre e chora.
    Amigo não tem hora pra consolar!

    Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
    Porque amigo é a direção.
    Amigo é a base quando falta o chão!

    Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
    Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
    Ter amigos é a melhor cumplicidade!

    Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
    Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!

    (Machado de Assis)


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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Sex Mar 22, 2013 5:36 pm

    SAUDADE

    Esta palavra saudade,
    Aquele que a inventou,
    A primeira vez que a disse
    Com certeza que chorou.

    Ninguém sabe definir,
    Nem dela saber falar:
    Às vezes nos faz sorrir
    Outras vezes faz chorar.

    Saudade é sentir a dor
    De um alguém que nos deixou,
    É sentir o seu calor,
    Numa luz que se apagou.

    É ter na alma uma esperança
    Uma ilusão que não finda,
    Ter morrido para o mundo,
    E pensar que vive ainda.

    Ter a alegria que esconde
    A tristeza que se não vê,
    É chamar quem não responde,
    Abraçar quem não nos vê.

    Saudade, tenho saudade
    De outros tempos que eu vivia;
    Julgando tudo verdade,
    Mas tudo foi fantasia.

    Lutécia de Sousa.


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