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     Poetas Portugueses

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    Alexandre Santos
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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Qua Maio 19, 2010 11:16 pm

    Carla:

    Só poemas bonitos..... escolhidos a dedo !!

    Bjs,
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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Qui Maio 20, 2010 2:40 am

    Para quem sabe, o poema, que foi apagado, pk estava indevidamente colocado, por distração, poderia ter sido transferido para o seu devido lugar e ser apagado na totalidade, não tem geito nenhum, a foto ter ficado.

    Obrigada

    Fátima Berenguel
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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Dom Maio 23, 2010 12:23 am

    Avarento

    Puxando um avarento de um pataco
    Para pagar a tampa de um buraco
    Que tinha já nas abas do casaco,
    Levanta os olhos, vê o céu opaco,
    Revira-os fulo e dá com um macaco
    Defronte, numa loja de tabaco...
    Que lhe fazia muito mal ao caco!
    Diz ele então
    Na força da paixão:
    — Há casaco melhor que aquela pele?
    Trocava o meu casaco por aquele...
    E até a mim... por ele.

    Tinha razão,
    Quanto a mim.
    Quem não tem coração,
    Quem não tem alma de satisfazer
    As niquices da civilização,
    Homem não deve ser;
    Seja saguim,
    Que escusa tanga, escusa langotim:
    Vá para os matos,
    Já não sofre tratos
    A calçar botas, a comprar sapatos;
    Viva nas tocas como os nossos ratos,
    E coma cocos, que são mais baratos!

    João de Deus, in 'Campo de Flores'

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Dom Maio 23, 2010 12:26 am

    Amigo Velho

    (A Martins de Carvalho num dia dos seus anos)

    Uma vez encontrámo-nos os dois
    Nesse mar da política; depois,
    Como diversa bússola nos guia,
    Cada qual foi seu rumo: todavia,
    Em certas almas nunca se oblitera
    A afeição de um companheiro antigo:
    Sou para vós por certo o que então era;
    E eu, como então na minha primavera,
    Abraço o venerando e velho amigo!

    João de Deus, in 'Campo de Flores'

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Dom Maio 23, 2010 12:30 am

    Cantigas

    Quando vejo a minha amada
    Parece que o Sol nasceu;
    Cantai, cantai alvorada
    Ó avezinhas do céu.

    Nessas águas do Mondego
    Se pode a gente mirar,
    Elas procuram sossego...
    E vão caminho do mar.

    A rosa que tu me deste
    Peguei-lhe, mudou de cor;
    Tornou-se de azul-celeste
    Como o céu do nosso amor.

    Não me fales da janela,
    Que te não ouço da rua;
    Fala-me de alguma estrela,
    Que te vou ouvir da Lua.

    Dizes que a letra não deve
    Ser nunca miudinha;
    Mas grada ou miúda escreve,
    Que o coração adivinha.

    Não digas que me não amas
    A ver se tenho ciúme;
    Os laços do amor são chamas,
    E não se brinca com lume.

    A virgem dos meus amores
    Sobressai entre as mais belas:
    É como a rosa entre flores,
    É como o Sol entre estrelas.

    Eu zombo de sol e chuva,
    Noite e dia, terra e mar;
    Ais de uma pobre viúva,
    Se os ouço, dá-me em chorar.

    A sombra da nuvem passa
    depressa pela seara;
    Mas a nuvem da desgraça
    Já de mim se não separa.

    Eu bem sei qual é a tinta
    Que dás às faces mimosas;
    E o carmim com que pinta
    Deus nosso Senhor as rosas.

    Quando eu era pequenino
    Que chorava a bom chorar
    A mãe beijava o menino,
    No beijo se ia o pesar.

    Nunca os beijos que te dei
    Me venham ao pensamento...
    Correi lágrimas, correi
    Para o mar do sofrimento.

    Faça Deus maior o mundo,
    Terra, mar e céu maior,
    Não faz nada tão profundo,
    Tão vasto como este amor.

    Se tua mãe te vigia,
    Faz tua mãe muito bem;
    Com jóias de tal valia
    Não há fiar em ninguém.

    Na alma já não me assoma
    Aquela antiga visão;
    A rosa perdeu o aroma
    A luz perdeu o clarão.

    João de Deus, in 'Campo de Flores'

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Ter Maio 25, 2010 12:12 am

    Cesário Verde



    José Joaquim Cesário Verde (Lisboa, 25 de Fevereiro de 1855Lumiar, 19 de Julho de 1886) foi um poeta português .
    Filho do lavrador e comerciante José Anastácio Verde e de Maria da Piedade dos Santos Verde, Cesário matriculou-se no Curso Superior de Letras em 1873, frequentando por apenas alguns meses o curso de Letras. Ali conheceu Silva Pinto, grande amigo pelo resto da vida. Dividia-se entre a produção de poesias (publicadas em jornais) e as actividades de comerciante, herdadas do pai.
    Em 1877 começou a dar sinais a tuberculose, doença que já lhe tirara o irmão e a irmã. Estas mortes servem de inspiração a um de seus principais poemas, Nós (1884).
    Tenta curar-se tuberculose, mas sem sucesso; vem a falecer no dia 19 de Julho de 1886. No ano seguinte Silva Pinto organiza O Livro de Cesário Verde (disponível ao público em 1901), compilação da sua poesia.
    De poesia delicada, Cesário empregou técnicas impressionistas, com extrema sensibilidade ao retratar a Cidade e o Campo, que são os seus cenários predilectos. Evitou o lirismo tradicional, expressando da forma mais natural possível.

    (retirado da net)

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Ter Maio 25, 2010 12:14 am

    Heroísmos

    Eu temo muito o mar, o mar enorme,
    Solene, enraivecido, turbulento,
    Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;
    O mar sublime, o mar que nunca dorme.

    Eu temo o largo mar, rebelde, informe,
    De vítimas famélico, sedento,
    E creio ouvir em cada seu lamento
    Os ruídos dum túmulo disforme.

    Contudo, num barquinho transparente,
    No seu dorso feroz vou blasonar,
    Tufada a vela e n'água quase assente,

    E ouvindo muito ao perto o seu bramar,
    Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,
    Escarro, com desdém, no grande mar!

    Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Ter Maio 25, 2010 12:16 am

    Manias

    O mundo é velha cena ensanguentada.
    Coberta de remendos, picaresca;
    A vida é chula farsa assobiada,
    Ou selvagem tragédia romanesca.

    Eu sei um bom rapaz, - hoje uma ossada -,
    Que amava certa dama pedantesca,
    Perversíssima, esquálida e chagada,
    Mas cheia de jactância, quixotesca.

    Aos domingos a déia, já rugosa,
    Concedia-lhe o braço, com preguiça,
    E o dengue, em atitude receosa,

    Na sujeição canina mais submissa,
    Levava na tremente mão nervosa,
    O livro com que a amante ia ouvir missa!

    Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Qua Maio 26, 2010 12:14 am

    Noites Gélidas

    Merina

    Rosto comprido, airosa, angelical, macia,
    Por vezes, a alemã que eu sigo e que me agrada,
    Mais alva que o luar de inverno que me esfria,
    Nas ruas a que o gás dá noites de balada;
    Sob os abafos bons que o Norte escolheria,
    Com seu passinho curto e em suas lãs forrada,
    Recorda-me a elegância, a graça, a galhardia
    De uma ovelhinha branca, ingênua e delicada.

    Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Qua Maio 26, 2010 8:48 pm

    DE TARDE



    Naquele pique-nique de burguesas,
    Houve uma coisa simplesmente bela,
    E que, sem ter história nem grandezas,
    Em todo o caso dava uma aguarela.

    Foi quando tu, descendo do burrico,
    Foste colher, sem imposturas tolas,
    A um granzoal azul de grão-de-bico
    Um ramalhete rubro de papoulas.

    Pouco depois, em cima duns penhascos,
    Nós acampámos, inda o Sol se via;
    E houve talhadas de melão, damascos,
    E pão-de-ló molhado em malvasia.

    Mas, todo púrpuro a sair da renda
    Dos teus dois seios como duas rolas,
    Era o supremo encanto da merenda
    O ramalhete rubro das papoulas!


    Cesário Verde.

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Qui Maio 27, 2010 1:23 pm

    Arrojos

    Se a minha amada um longo olhar me desse
    Dos seus olhos que ferem como espadas,
    Eu domaria o mar que se enfurece
    E escalaria as nuvens rendilhadas.
     
    Se ela deixasse, extático e suspenso
    Tomar-lhe as mãos mignonnes e aquecê-las,
    Eu com um sopro enorme, um sopro imenso
    Apagaria o lume das estrelas.
     
    Se aquela que amo mais que a luz do dia,
    Me aniquilasse os males taciturnos,
    O brilho dos meus olhos venceria
    O clarão dos relâmpagos nocturnos.
     
    Se ela quisesse amar, no azul do espaço,
    Casando as suas penas com as minhas,
    Eu desfaria o Sol como desfaço
    As bolas de sabão das criancinhas.
     
    Se a Laura dos meus loucos desvarios
    Fosse menos soberba e menos fria,
    Eu pararia o curso aos grandes rios
    E a terra sob os pés abalaria.
     
    Se aquela por quem já não tenho risos
    Me concedesse apenas dois abraços,
    Eu subiria aos róseos paraísos
    E a Lua afogaria nos meus braços.
     
    Se ela ouvisse os meus cantos moribundos
    E os lamentos das cítaras estranhas,
    Eu ergueria os vales mais profundos
    E abateria as sólidas montanhas.
     
    E se aquela visão da fantasia
    Me estreitasse ao peito alvo como arminho,
    Eu nunca, nunca mais me sentaria
    Às mesas espelhentas do Martinho.
     
    Cesário Verde

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Sab Maio 29, 2010 8:15 am

    Tina e Da. Genny:

    Eu não conhecia Cesário Verde. Gostei muito do que li.
    Vivendo e aprendendo, com vocês e com o Mundo.

    Bjs,
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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Dom Maio 30, 2010 8:48 pm

    Oi Alexandre

    Então aí vai mais um poemazinho...
    É isso que dizes... vivendo e aprendendo!!!
    Vamos sempre aprendendo uns com os outros e com a vida...
    A vida é a Grande Escola!!!


    Bjs.

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Dom Maio 30, 2010 8:51 pm

    CADÊNCIAS TRISTES

    A João de Deus

    Ó bom João de Deus, ó lírico imortal,
    Eu gosto de te ouvir falar timidamente
    Num beijo, num olhar, num plácido ideal;
    Eu gosto de te ver contemplativo e crente,
    O pensador suave, ó lírico imortal!

    E fico descansada, à noite, quando cismo
    Que tentam proscrever a sensibilidade,
    E querem denegrir o cândido lirismo;
    Porque o teu rosto exprime uma serenidade,
    Que vem tranqüilizar-me, à noite, quando cismo!

    O enleio, a simpatia e toda a comoção
    Tu mostras no sorriso ascético e perfeito;
    E tens o edificante e doce amor cristão,
    Num trono de bondade, a iluminar-te o peito,
    Que é toda a melodia e toda a comoção!

    Poeta da mulher! Atende, escuta, pensa,
    Já que és o nosso irmão, já que és o nosso mestre.
    Que ela, ou doente sempre ou na convalescença,
    E como a flor de estufa em solidão silvestre,
    Ao tempo abandonada! Atende, escuta, pensa.

    E, ó meigo visionário, ó meu devaneador
    O sentimentalismo há de mudar de fases;
    Mas só quando morrer a derradeira flor
    E que não hão de ler-se os versos que tu fazes,
    O bom João de Deus, ó meu devaneador!


    Cesário Verde

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Qua Jun 02, 2010 11:48 pm

    De tarde

    Naquele "pic-nic" de burguesas,
    Houve uma coisa simplesmente bela,
    E que, sem ter história nem grandezas,
    Em todo o caso dava uma aguarela.

    Foi quando tu, descendo do burrico,
    Foste colher, sem imposturas tolas,
    A um granzoal azul de grão de bico
    Um ramalhete rubro de papoulas.

    Pouco depois, em cima duns penhascos,
    Nós acampámos, indo o sol se via;
    E houve talhadas de melão, damascos
    E pão de ló molhado em malvasia.

    Mas, todo púrpuro, a sair da renda
    Dos teus dois seios como duas rolas,
    Era o supremo encanto da merenda
    O ramalhete rubro das papoulas!

    Cesário Verde

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Ter Jun 08, 2010 11:47 pm

    Eu, que sou feio...

    Eu, que sou feio, sólido, leal,
    A ti, que és bela, frágil, assustada,
    Quero estimar-te, sempre, recatada
    Numa existência honesta, de cristal.

    Sentado à mesa dum café devasso.
    Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura.
    Nesta Babel tão velha e corruptora,
    Tive tenções de oferecer-te o braço.

    E, quando socorreste um miserável,
    Eu que bebia cálices de absinto,
    Mandei ir a garrafa, porque sinto
    Que me tornas prestante, bom, saudável.

    «Ela aí vem!» disse eu para os demais;
    E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
    O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
    Na frescura dos linhos matinais.

    Via-te pela porta envidraçada;
    E invejava, - talvez não o suspeites!-
    Esse vestido simples, sem enfeites,
    Nessa cintura tenra, imaculada.

    Ia passando, a quatro, o patriarca.
    Triste eu saí. Doía-me a cabeça.
    Uma turba ruidosa, negra, espessa,
    Voltava das exéquias dum monarca.

    Adorável! Tu muito natural,
    Seguias a pensar no teu bordado;
    Avultava, num largo arborizado,
    Uma estátua de rei num pedestal.

    Cesário Verde

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Dom Jun 13, 2010 10:45 pm

    Flores Velhas

    Fui ontem visitar o jardinzinho agreste,
    Aonde tanta vez a lua nos beijou,
    E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste,
    Soberba como um sol, serena como um vôo.

    Em tudo cintilava o límpido poema
    Com ósculos rimado às luzes dos planetas:
    A abelha inda zumbia em torno da alfazema;
    E ondulava o matiz das leves borboletas.

    Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem,
    A imagem que inspirava os castos madrigais;
    E as vibrações, o rio, os astros, a paisagem,
    Traziam-me à memória idílios imortais.

    E nosso bom romance escrito num desterro,
    Com beijos sem ruído em noites sem luar,
    Fizeram-mo reler, mais tristes que um enterro,
    Os goivos, a baunilha e as rosas-de-toucar.

    ..................................................................

    Ó minha boa amiga, ó minha meiga amante!
    Quando ontem eu pisei, bem magro e bem curvado,
    A areia em que rangia a saia roçagante,
    Que foi na minha vida o céu aurirrosado,

    Diziam-me que tu, no flórido passado,
    Detinhas sobre mim, ao pé daquelas rosas,
    Aquele teu olhar moroso e delicado,
    Que fala de langor e de emoções mimosas;

    E, ó pálida Clarisse, ó alma ardente e pura,
    Que não me desgostou nem uma vez sequer,
    Eu não sabia haurir do cálix da ventura
    O néctar que nos vem dos mimos da mulher.
    ..................................................................

    Eu tinha tão impresso o cunho da saudade,
    Que as ondas que formei das suas ilusões
    Fizeram-me enganar na minha soledade
    E as asas ir abrindo às minhas impressões.

    Soltei com devoção lembranças inda escravas,
    No espaço construí fantásticos castelos,
    No tanque debrucei-me em que te debruçavas,
    E onde o luar parava os raios amarelos.

    Cuidei até sentir, mais doce que uma prece,
    Suster a minha fé, num véu consolador,
    O teu divino olhar que as pedras amolece,
    E há muito me prendeu nos cárceres do amor.

    .......................................................................

    E como na minha alma a luz era uma aurora,
    A aragem ao passar parece que me trouxe
    O som da tua voz, metálica, sonora,
    E o teu perfume forte, o teu perfume doce,

    Agonizava o Sol gostosa e lentamente,
    Um sino que tangia, austero e com vagar,
    Vestia de tristeza esta paixão veemente,
    Esta doença enfim, que a morte há de curar.

    E quando me envolveu a noite, noite fria,
    Eu trouxe do jardim duas saudades roxas,
    E vim a meditar em que me cerraria,
    Depois de eu morrer, as pálpebras já frouxas.

    Pois que, minha adorada, eu peço que não creias
    Que eu amo esta existência e não lhe queira um fim;
    Há tempos que não sinto o sangue pelas veias
    E a campa talvez seja afável para mim.

    Portanto, eu, que não cedo às atrações do gozo,
    Sem custo hei-de deixar as mágoas deste mundo,
    E, ó pálida mulher, de longo olhar piedoso,
    Em breve te olharei calado e moribundo.

    Mas quero só fugir das coisas e dos seres,
    Só quero abandonar a vida triste e má
    Na véspera do dia em que também morreres,
    Morreres de pesar, por eu não viver já!

    E não virás, chorosa, aos rústicos tapetes,
    Com lágrimas regar as plantações ruins;
    E esperarão por ti, naqueles alegretes,
    As dálias a chorar nos braços dos jasmins!

    Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Dom Jun 13, 2010 10:47 pm

    Lágrimas

    Ela chorava muito e muito, aos cantos,
    Frenética, com gestos desabridos;
    Nos cabelos, em ânsias desprendidos
    Brilhavam como pérolas os prantos.

    Ele, o amante, sereno como os santos,
    Deitado no sofá, pés aquecidos,
    Ao sentir-lhe os soluços consumidos,
    Sorria-se cantando alegres cantos.

    E dizia-lhe então, de olhos enxutos:
    - "Tu pareces nascida da rajada,
    "Tens despeitos raivosos, resolutos:

    "Chora, chora, mulher arrenegada;
    "Lagrimeja por esses aquedutos...
    -"Quero um banho tomar de água salgada."

    Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Ter Jun 15, 2010 9:26 pm

    Tina:

    Só para marcar presença rssss; mas sabes que estou sempre por aqui, na "tua cola" ehehehe.

    Bjs,
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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Ter Jun 15, 2010 11:38 pm

    Oi Alexandre

    Eu sei que dás a voltinha toda... eheh
    Aí vai mais um poema...


    Bjs.

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Ter Jun 15, 2010 11:39 pm

    O SENTIMENTO DE UM OCIDENTAL
    I

    AVE-MARIAS


    Nas nossas ruas, ao anoitecer,
    Há tal soturnidade, há tal melancolia,
    Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
    Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

    O céu parece baixo e de neblina,
    O gás extravasado enjoa-me, perturba-me;
    E os edifícios, com as chaminés, e a turba
    Toldam-se duma cor monótona e londrina.

    Batem os carros de aluguer, ao fundo,
    Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
    Ocorrem-me em revista, exposições, países:
    Madrid, Paris, Berlim, Sampetersburgo, o mundo!

    Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
    As edificações somente emadeiradas:
    Como morcegos, ao cair das badaladas,
    Saltam de viga em viga, os mestres carpinteiros.

    Voltam os calafates, aos magotes,
    De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos,
    Embrenho-me a cismar, por boqueirões, por becos,
    Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

    E evoco, então, as crónicas navais:
    Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado
    Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
    Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

    E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
    De um couraçado inglês vogam os escaleres;
    E em terra num tinido de louças e talheres
    Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.

    Num trem de praça arengam dois dentistas;
    Um trôpego arlequim braceja numas andas;
    Os querubins do lar flutuam nas varandas;
    Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

    Vazam-se os arsenais e as oficinas;
    Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
    E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
    Correndo com firmeza, assomam as varinas.

    Vêm sacudindo as ancas opulentas!
    Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
    E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
    Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

    Descalças! Nas descargas de carvão,
    Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
    E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
    E o peixe podre gera os focos de infecção!

    Cesário Verde

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Qua Jun 16, 2010 11:47 pm

    Afonso Lopes Vieira



    Afonso Lopes Vieira (Leiria, 26 de janeiro de 1878[1] - Lisboa, 1946) foi um poeta português.
    Frequentou a Universidade de Coimbra, onde obteve o grau de bacharel em Direito (1894-1900). Radicou-se em Lisboa, exercendo durante dezasseis anos as funções de redactor na Câmara dos Deputados (1900-1916). Notabilizou-se pela sua carreira literária, a que se passou a dedicar exclusivamente em 1916.
    Durante a juventude, participou na redacção alguns jornais manuscritos, de que são exemplos A Vespa e O Estudante . Com a publicação do livro Para Quê? (1897) marca a sua estreia poética, iniciando um período de intensa actividade literária — Ar Livre (1906), O Pão e as Rosas (1908), Canções do Vento e do Sol (1911), Poesias sobre as "Cenas Infantis" de Shumann (1915), Ilhas de Bruma (1917), País Lilás, Desterro Azul (1922) — encerrando a sua actividade poética, assim julgava, com a antologia Versos de Afonso Lopes Vieira (1927). A obra poética culmina com o inovador e epigonal livro Onde a terra se acaba e o mar começa (1940).
    O carácter activo e multifacetado do escritor tem expressão na sua colaboração em A Campanha Vicentina, na multiplicação de conferências em nome dos valores artísticos e culturais nacionais, recolhidas nos volumes Em demanda do Graal (1922) e Nova demanda do Graal (1942). A sua acção não se encerra, porém, aqui, sendo de considerar a dedicação à causa infantil, iniciada com Animais Nossos Amigos (1911), um filme infantil O Afilhado de Santo António (1928), entre outros. Por fim, assinale-se a sua demarcação face à ideologia salazarista expressa no texto Éclogas de Agora (1935).

    (retirado da net)

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Qua Jun 16, 2010 11:49 pm

    Dança do vento

    O vento é bom bailador,
    Baila, baila e assobia.
    Baila, baila e rodopia
    E tudo baila em redor.
    E diz às flores, bailando:
    - Bailai comigo, bailai!
    E elas, curvadas, arfando,
    Começam, débeis, bailando.
    E suas folhas, tombando,
    Uma se esfolha, outra cai.
    E o vento as deixa, abalando,
    - E lá vai!...
    O vento é bom bailador,
    Baila, baila e assobia,
    Baila, baila e rodopia,
    E tudo baila em redor.
    E diz às altas ramadas:
    Bailai comigo, bailai!
    E elas sentem-se agarradas
    Bailam no ar desgrenhadas,
    Bailam com ele assustadas,
    Já cansadas, suspirando;
    E o vento as deixa, abalando,
    E lá vai!...
    O vento é bom bailador,
    Baila, baila e assobia
    Baila, baila e rodopia,
    E tudo baila em redor!
    E diz às folhas caídas:
    Bailai comigo, bailai!
    No quieto chão remexidas,
    As folhas, por ele erguidas,
    Pobres velhas ressequidas
    E pendidas como um ai,
    Bailam, doidas e chorando,
    E o vento as deixa abalando
    - E lá vai!
    O vento é bom bailador,
    Baila, baila e assobia,
    Baila, baila e rodopia,
    E tudo baila em redor!
    E diz às ondas que rolam:
    - Bailai comigo, bailai!
    e as ondas no ar se empolam,
    Em seus braços nus o enrolam,
    E batalham,
    E seus cabelos se espalham
    Nas mãos do vento, flutuando
    E o vento as deixa, abalando,
    E lá vai!...
    O vento é bom bailador,
    Baila, baila e assobia,
    Baila, baila e rodopia,
    E tudo baila em redor!

    Afonso Lopes Vieira

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Qui Jun 17, 2010 11:52 pm

    CANTARES DOS BÚZIOS

    Ai ondas do mar, ai ondas,
    ó jardins das alvas flores,
    sobre vós, ondas, ai ondas,
    suspiram os meus amores.

    No fundo dos búzios canta
    o mar que chora a cantar
    ó mar que choras cantando,
    eu canto e estou a chorar!

    Ai ondas do mar, ai ondas,
    eu bem vos quero lembrar:
    «a minha alma é só de Deus
    e o meu corpo da água do mar!»

    Afonso Lopes Vieira

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Ter Jun 22, 2010 12:33 am


    BARTOLOMEU MARINHEIRO


    Era uma vez
    um capitão português
    chamado Bartolomeu
    que venceu
    um gigante enorme e antigo.
    Bartolomeu, em menino
    pequenino,
    ia para o pé do mar...

    e ficava a olhar
    o mar...
    E Bartolomeu cismava...
    Ó que lindo, ó que lindo,
    o mar, e a sua voz profunda e bela!
    Uma nuvem no céu, era uma caravela
    que novos céus andava descobrindo...

    Ó que lindo, os navios,
    que vão suspensos entre a água e o céu,
    com velas brancas e mastros esguios,
    e com bandeiras de todas as cores!
    Bartolomeu cismava
    porque ouvia
    tudo o que o mar contava
    e lhe dizia.


    Afonso Lopes Vieira

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    Última edição por Maria Ernestina Carvalho em Ter Jul 27, 2010 7:45 pm, editado 1 vez(es)
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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Ter Jun 29, 2010 6:12 pm

    PINHAL DO REI

    Catedral verde e sussurrante, aonde
    a luz se ameiga e se esconde
    e aonde, ecoando a cantar,
    se alonga e se prolonga a longa voz do mar:
    ditoso o "Lavrador" que a seu contento
    por suas mãos semeou este jardim;
    ditoso o Poeta que lançou ao vento
    esta canção sem fim...

    Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
    que vedes no mar?
    Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
    rei D. Dinis, bom poeta e mau marido,
    lá vem as velidas bailar e cantar.

    Encantado jardim da minha infância,
    aonde a minh'alma aprendeu;
    a música do Longe e o ritmo da Distância
    que a tua voz marítima lhe deu;
    místico órgão cujo além se esfuma
    no além do Oceano, e onde a maresia
    ameiga e dissolve em bruma,
    e em penumbra de nave, a luz do dia.
    Por estes fundos claustros gemem
    os ais do Velho do Restelo...
    Mas tu debruças-te no mar e, ao vê-lo,
    teus velhos troncos de saudades fremem...

    Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
    que vedes no mar?
    Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
    são as caravelas, teu corpo cortado,
    é lo verde pino no mar a boiar.

    Afonso Lopes Vieira

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    MensagemAssunto: Re: Poetas Portugueses   Sex Jul 02, 2010 1:20 pm

    CAVALEIRO DO CAVALO DE PAU




    Vai a galope o cavaleiro e sem cessar
    Galopando no ar sem mudar de lugar.

    E galopa e galopa e galopa, parado,
    E galopa sem fim nas tábuas do sobrado.

    Oh!, que brabo corcel, que doídas galopadas,
    – Crinas de estopa ao vento e as narinas pintadas!

    Em curvas pelo ar, em velozes carreiras,
    O cavalo de pau é o terror das cadeiras!

    E o cavaleiro nunca muda de lugar,
    A galopar, a galopar a galopar!…

    Afonso Lopes Vieira

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