Idade : 73 Registrado dia : 29 Set 2007 Mensagens : 92 Localização : Vale da Amoreira -- Portugal Humor : Pobre não tem humor
Assunto: Re: Memórias do Huambo Qua Ago 06, 2008 7:06 pm
Marius
Cordiais saudações. O morro cuja foto colocaste aqui, salvo erro é o chamado == LUBIRI == Será ?
Um abraço
Rui Carinhas
francis daylhot
Idade : 45 Registrado dia : 26 Fev 2008 Mensagens : 3 Localização : costa de caparica -portugal Humor : o suficiente para viver feliz
Assunto: Re: Memórias do Huambo Qui Ago 07, 2008 6:53 am
OLA , EU SOU PRIMO DO ANIBAL E TAMBEM DO JORGE QUE ANDOU PELA SANZALA ANGOLA , O MEU AVO ERA FRANCISCO DEYLHOT QUE FOI INSPECTOR DOS C.F.B. EM NOVA LISBOA , SOU FILHO DO FRANCISCO JOSE , SOBRINHO DO ALBERTO QUE TRABALHOU NO RADIO CLUBE COM O ALEXANDRE CARATAO E RIBEIRO CRISTOVAO ,E DO LUIS DEYLHOT QUE TRABALHAVA COM O MARIO RAMALHO NAS OFICINAS
Assunto: Re: Memórias do Huambo Qui Ago 07, 2008 10:14 am
Fernando Rui Carinhas escreveu:
Marius
Cordiais saudações. O morro cuja foto colocaste aqui, salvo erro é o chamado == LUBIRI == Será ?
Um abraço
Rui Carinhas
Olá Rui
Tenho verificado que o meu amigo, por aquilo que leio aqui, é aquilo que nós em Cabinda e por certo no resto de Angola é chamado de o "cota", o mais velho, o homem de respeito, aquele que tem em si a sabedoria dos anos e a quem se recorre quando há qualquer "maka" no kimbo.
Infelizmente em Portugal ao designar alguém por "cota" é desprestigiante, é designar alguém sem préstimo, o velho (o pai), o que só chateia enfim é triste quando comparado pela forma carinhosa como nós tratávamos lá longe onde o sol castiga mais.
Um abraço amigo desde já meu caro Rui Carinhas.
Este morro, como não podia deixar de ser, é realmente o Monte Lubiri.
Tem 1.925 metros e diz a tradição que é um local assombrado pelos espíritos. Ou assombrado ou não, certo é que quem passava pelo Alto Hama a imponência deste monte não deixava ninguém indiferente.
Sabes de onde é esta foto?
Do Alto Hama!
Um abraço
Alexandre
Idade : 50 Registrado dia : 12 Mar 2008 Mensagens : 541 Localização : Brasil Humor : up
Assunto: Re: Memórias do Huambo Qui Ago 07, 2008 7:13 pm
Marius 70: Tu pensas como eu em relação aos mais velhos. Eles, os mais velhos, são e continuarão a ser sempre os mais sábios, os mais experientes, a quem devemos recorrer, quando precisamos de conselhos. Antigamente, o pessoal mais novo / procurava sempre aprender o máximo com os mais velhos - cotas ou sékulos. Essa turma, hoje ocupou o lugar dos antigos sábios, hoje, são eles a dar os conselhos, mas, sábiamente, eles só dão conselhos a quem lhes for pedir, senão, ficam na deles só a observar, como sábios que são. Então, vamos todos aprender com os sékulos de hoje, pois nôs seremos os sékulos amanhã. Um abraço, a ti e ao Sr. Rui. Alexandre
Cazimar Maior
Idade : 52 Registrado dia : 22 Jan 2008 Mensagens : 540 Localização : Portugal
Assunto: Re: Memórias do Huambo Qui Ago 07, 2008 7:37 pm
Recordar o Huambo, com imagens ...
Por vezes, as imagens, valem mais que 1000 palavras ...
Assunto: Re: Memórias do Huambo Sex Ago 08, 2008 11:58 am
Alexandre escreveu:
Marius70: Talvez tenhas feito a tropa com o meu primo, que / tem mais ou menos a tua idade, o nome dele é, Ro- berto Armas Pais, e com outro amigo, Carlos Traça; eu acho que eles andaram na tropa em Nova Lisboa, na mesma época que tu. Um abraço, Alexandre
Olá Alexandre
Na época tínhamos três companhias na EAMA para o curso de sargentos. Entrei em Janeiro de 1973. Aqui está a minha passagem por lá. Caso os teus primos tenham estado na mesma época que eu por certo o que eu aqui descrevo é comum a eles.
Nova Lisboa - E.A.M.A.
27 de Janeiro de 1973 - Sábado
A camioneta da E.V.A. (Empresa de Viação de Angola) faz-se ao caminho cheio de mancebos que iam para a E.A.M.A. (Escola de Aplicação Militar de Angola) sediada em Nova Lisboa para o curso de Sargentos Milicianos. 650 Km era a distância entre a asa da mãe e o "nascer" de um novo ser independente.
Camionetas da EVA
Chegamos por volta das 5h30m da tarde e a chover, vejam lá o nosso azar (durante a semana a chuva foi uma constante), fomos separados por companhias. Um capitão, de quem já não me lembro o nome, à nossa chegada disse que era bom irem para a companhia dele pois era uma companhia só para homens. Segundo o que mais tarde me disseram, esse capitão fez parte de um grupo que, no ataque aos acampamentos dos guerrilheiros, abriam a porta das cubatas ao pontapé, só que um dia houve um azar, as portas estavam armadilhadas e ele viu morrerem alguns soldados, a partir daí nunca mais se recompôs e enviá-lo para a E.A.M.A. foi o melhor recurso. De uma forma ou de outra acabei por não ficar nessa companhia.
Distribuídas as dormidas, no dia seguinte foi a vez de formar à civil, à chuva, e levantar o fardamento. Tivemos um companheiro que teve que fazer a instrução durante duas semanas com a roupa civil pois não havia fardamento que lhe servisse tal era o arcaboiço dele.
Em 1960 ainda não tinha o A final
A minha companhia era composta por dois ladrões, um sargento e um capitão. Chegados ao fim do mês o pré era de tal maneira ridículo que nem dava para um baleizão (gelado).
Pela primeira vez, que eu saiba, houve um levantamento de pré (isto em 1973), e todos nós recusámos receber o mesmo. O capitão viu o caso mal parado e tentou “comprar” os nossos líderes, enviando-os ao sargento e este à boca do cofre quis comprá-los só que aquela companhia não era uma companhia qualquer, já soprava os ventos da mudança e à recusa lá tiveram que abrir os cordões à bolsa. Ironia do destino, anos mais tarde, já eu estava em Cabinda, foi este Capitão que levou o Zeca, Adriano, Fausto e outros Cantores de Intervenção até ao Cinema Chiloango onde eu tive o prazer de cantar em pleno palco, de braço dado com o Zeca «Grândola, Vila Morena», a «Cantiga é uma arma» e tantas outras baladas que ouvia em surdina em Nova Lisboa e lá no interior do mato vegetal de seu nome Maiombe.
A recruta foi o que se esperava. Como tinha sempre praticado desporto os exercícios não eram por demais, e aos vinte anos o corpo aguenta tudo. Na lagoa dávamos os nossos “mergulhos”, com arma, camuflado, botas e chafurdávamos na lama onde os porcos chafurdavam também. Lembro-me que um dia todo eu era lama, fui para debaixo do chuveiro fardado com arma e tudo. Depois de limpa a arma e cartucheiras às duas horas estava-me a deitar e às 5e 30 a levantar para mais um dia de instrução. Velhos tempos.
A lagoa lá ao fundo
Ao fim-de-semana a tentativa ou para ir até à cidade ou até Luanda. Alinhadinhos havia a revista para ver se estava tudo nos conformes. Cabelo curto mas com “pelugem” no pescoço, sapatos engraxados mas que a uma pisadela deixavam de estar, barba feita, mais que feita, mas que ao passar de um papel fazia o ruído característico era o suficiente para se dizer adeus à saída.
Com o tempo iríamos aprender a contornar essas dificuldades e quase sempre à noite fazíamos um giro até à cidade.
E o tempo foi passando, aprendemos a sobreviver comendo o que a natureza dava, éramos largados à noite em locais inóspitos e através das estrelas, de uma bússola e de um mapa lá tínhamos que chegar ao quartel. Saídas do quartel e correr por essa Nova Lisboa fora e as miúdas a olhar para aqueles rostos de crianças feitos homens.
Tiros e mais tiros na carreira de tiro para aperfeiçoar a pontaria. Havia na minha companhia um companheiro que tinha um problema, levantava a perna e o braço do mesmo lado. Não sei como o conseguia mas certo é que tinha esse problema. Na carreira de tiro o alvo dele estava sempre sem buracos, o alvo do companheiro ao lado tinha mais buracos que o normal, quando no fim da recruta saiu a listagem dos aprovados lá estava o nome dele como aprovado para… «Básico». Muito ele chorou.
No pórtico
A 14 de Março a injecção "cavalar" que íria tentar nos colocar imunes contra todo o tipo de doenças. Todos em fila de "pirilau", vinha um enfermeiro colocava a agulha na omoplata e outro seringava o líquido. Alguns caíam desmaiados logo ali, outros, com essa injecção, acabaram por ficar doentes.
15 de Abril de 1973 fim da recruta, dia do Juramento. Na parada, com tacos enfiados no chão a servirem de guia para a coreografia que iríamos fazer, o nosso pelotão cantou em plenos pulmões ao som da Balada dos Boinas Verdes (Ballad of the green beret), a canção que nos uniu durante aqueles três meses.
HINO AO 3º PELOTÃO
Cabelo ao vento, Vontade forte, Alegria de viver, 3º grupo, vai a passar, “Água-Viva” a comandar.
Já lá vamos, Para a sessão, Cabeça erguida, G3 na mão, Progredindo, sempre em corrida, A ti amigo, dá-mos a mão.
Não desanimes, ó camarada, Pois a recruta, está acabada, 3º grupo, sempre a marchar, Muitas saudades, irá deixar.
Canta comigo, esta canção, Ela é mensagem, de paz e amor, É a palavra, a oração, É o campo de trigo em flor.
Em cima: Eu, Pereira, Teodoro e Rui Rosa Em baixo:Gorgulho e Hermínio
Alexandre
Idade : 50 Registrado dia : 12 Mar 2008 Mensagens : 541 Localização : Brasil Humor : up
Assunto: Re: Memórias do Huambo Sex Ago 08, 2008 8:03 pm
Olá Marius 70:
Li tudo o que escreves-te, eu nunca passei por isso, saí de Angola com 17 anos. A música, escuteia muitas vezes no Léua, cantada pelos pára-quedistas, a vossa tem outros versos, por sinal bem adptados. O pessoal passou por tudo isso, para nada, hoje não têm reconhecimento nenhum, aliás, tem gente que ganhou muito com isso: a família e o próprio Mário Soares e outros iguais a ele. O meu primo mora em Lisboa e o Carlos que te falei, mora em Luanda.
Um abraço.
Alexandre
Cazimar Maior
Idade : 52 Registrado dia : 22 Jan 2008 Mensagens : 540 Localização : Portugal
Assunto: Re: Memórias do Huambo Dom Ago 17, 2008 4:19 am