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CAÇADOR == HUGO SEIA ==

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mariajoaomarques
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MensagemAssunto: CAÇADOR == HUGO SEIA ==   Ter Ago 12, 2008 8:24 pm

autorizada pelo hugo seia...vou colocar aqui todo o material que ele me enviou referente ao livro a ser reeditado.
Este livro tem cerca de 1.200 fotos.



“MUNDJAMBA
A VIDA DE UM CAÇADOR AFRICANO”

SEGUNDA EDIÇÃO


DEDICATÓRIA

Este livro não existiria se eu não tivesse nascido em Angola e se não fosse filho de um caçador que sabiamente me transmitiu o interesse e o respeito que a caça merece, como também não teria sido escrito sem o apoio incondicional de minha mulher e filhas, não podendo esquecer a amizade e os ensinamentos das gentes Africanas com quem partilhei os muitos anos que dediquei aos animais selvagens e ao Continente Negro. Por tudo isso, é evidente que “Mundjamba” não pode deixar de ser dedicado a Angola, a minha Pátria do coração, e a quem, à sua maneira e a seu tempo, me proporcionou a vida que sempre desejei viver. Numa primeira fase dedico-o a meus pais, principalmente a meu pai, o meu gigante de sempre, o meu grande companheiro dos sonhos e da realidade e, numa segunda, à Maria Alice, embora uma simples dedicatória esteja muito aquém dos sacrifícios e da paciência que dela exigi e do amor e carinho com que sempre apoiou o que me propus fazer ao longo da minha carreira. Não posso também esquecer a Carla e a Marina que, sem que para isso tivessem contribuído, sofreram as consequências de uma vivência agitada, não tendo sido mais Africanas porque a política dos homens lhes negou a cidadania Angolana. Por fim, uma dedicatória sentida e um muito obrigado aos meus colaboradores, companheiros dedicados que tanto me ensinaram e que, a meu lado, tantas vezes arriscaram a vida, não esquecendo também a gente Africana em geral que sempre me acolheu como verdadeiro irmão.
O autor

PRÓLOGO
Por Tony Sanchez-Ariño

Em Janeiro de 1995 tive a honra de escrever o prólogo da obra “Mundjamba – A Vida de um Caçador Africano”, que relata a história e vida desse grande caçador profissional que é Hugo Seia, “maestro de maestros” no mundo cinegético africano, a quem admiro e considero um querido amigo.
Sem nos apercebermos já passaram treze anos desde que a primeira edição de “Mundjamba” foi publicada, e hoje Hugo apresenta-nos a segunda edição actualizada, com cerca de setecentas páginas, obviamente enriquecida e ilustrada com mil e duzentas fotografias, o que a transformará no livro mais extenso entre os existentes sobre caça em África, uma verdadeira delícia para caçadores, viajantes e amantes da Natureza, para além de se tratar de uma obra de referência.
Muitas coisas aconteceram pelo mundo nestes últimos treze anos, mas para Hugo os ventos sopraram sempre na mesma direcção, levando-o aos diversos países africanos onde caça e trazendo-o de volta ao seio da sua família, onde as filhas Carla e Marina o esperam, assim como a mulher, Maria Alice, sua eterna companheira de andanças sob o sol africano. O que mudou foi a sua neta, Sara, que à data da publicação de “Mundjamba – A Vida de um Caçador Africano” tinha apenas três anos de idade e agora é uma linda jovem de dezasseis e, também, o facto de Hugo ter ganho mais cabelos brancos. O resto mantém-se inalterável, continuando a caçar com entusiasmo os seus elefantes, leões e búfalos.
Para além da sua personalidade cinegética, existe ainda outra faceta que distingue Hugo dos seus colegas de profissão, aquela que lhe permite baixar a carabina e substitui-la por pincéis, realizando magníficas pinturas reconhecidas internacionalmente, inspiradas na fauna africana.
Hugo tem vários livros publicados sobre caça africana, além de “Mundjamba – A Vida de um Caçador Africano”, traduzidos para Espanhol e Inglês, todos muito interessantes e de leitura fácil, devido à sua qualidade de narrador e à virtude de contar como as coisas acontecem na realidade, fugindo do sensacionalismo e fantasia tão comuns neste mundo da caça africana a que, ao que parece, muitos pretendem pertencer e ser heróis. É curioso que os grandes veteranos, como Hugo, raramente mencionam os riscos que correm, ao contrário de novatos nestas lides que, provavelmente em relação aos primeiros safaris de suas vidas, contam histórias inverosímeis através das quais pretendem passar a mensagem de que em cada três minutos o caçador arrisca a vida.
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mariajoaomarques
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MensagemAssunto: Re: CAÇADOR == HUGO SEIA ==   Qui Ago 14, 2008 11:36 am

Hugo Seia nasceu nas preciosas terras de Angola, em 1942, a pérola do então Império Colonial Português, razão por que lhe corre nas veias sangue africano. Desde que pela primeira vez visitei Angola, achei estranhíssimo que, após cinco séculos sob a bandeira de Portugal, tenha mantido os costumes, os hábitos e as tradições da boa gente portuguesa, sem se deixar influenciar por países vizinhos e por diferentes culturas, ao contrário do que se aconteceu em Moçambique, por exemplo, também sob o domínio de Portugal durante bastantes séculos, que perdeu uma grande parte da sua pureza tradicional, por influência da África do Sul, ao ponto de ser o inglês uma língua comum no País, coisa impensável em Angola. Conheci muitas pessoas nascidas em Angola e Moçambique, durante as minhas frequentes visitas a ambos os países, concluindo que, curiosamente, a sua forma de ser, de estar e de pensar é tão diferente que não parecem ter a mesma nacionalidade.
Eu nasci em 1930 e quando, em 1952, comecei a caçar elefantes em África, Hugo tinha apenas dez anos de idade. Não obstante, ele soube bem aproveitar o tempo, numa primeira fase como funcionário do Quadro Administrativo, na qualidade de “Chefe de Posto” e, numa segunda, como caçador profissional, resultado da sua verdadeira vocação, herdada de seu pai que foi também um grande caçador, tornando-se ao longo do tempo numa das figuras mais conhecidas internacionalmente neste mundo da caça grossa, tendo conduzido safaris de muitos e famosos caçadores desportivos de todo o mundo.
Devido à guerra civil que assolou Angola, Hugo viu-se obrigado a abandonar a sua querida terra natal e transferir a sua actuação como caçador profissional para o Sudão e depois para o antigo Sudoeste Africano, hoje Namíbia, mas problemas de vária ordem forçaram-no a fixar-se em Portugal, de onde continuou a realizar os seus safaris em diversos países africanos, com a garantia que deixa a família em lugar seguro, longe de possíveis golpes de estado e guerras civis, desgraçadamente tão normais no Continente Africano.
Hugo sempre teve o desejo de regressar a Angola, sonho que realizou há pouco, durante a Páscoa de 2008, viajando por uma boa parte do País onde a sua vida se desenrolou. Poucos dias antes de escrever estas linhas falei com ele, pelo telefone, tendo sido informado que regressara muito pesaroso porque, em relação a animais selvagens, ter concluído que desapareceram a maioria das espécies. A esperança reside no interesse de particulares em importar animais da Namíbia e da África do Sul, para repovoar propriedades vedadas, facto que, obviamente, exclui Angola da lista de países onde se pode caçar actualmente, ou mesmo num futuro breve. Por outro lado, Hugo regozija-se por ver que o seu País está a recuperar do estado provocado pela longa guerra, construindo novas estradas, instalando novas indústrias, abrindo escolas e hospitais, o que em breve poderá concorrer para uma vida tranquila e digna da sua gente.
Normalmente, nos prólogos, existe o hábito de se florear a figura do autor, mas eu não o quero fazer, porque não o necessita. Hugo não é apenas um mais entre os muitos caçadores profissionais africanos, fazendo parte, pelo contrário, de um pequeno grupo que constitui “Os Últimos dos Poucos”, que hoje se podem contar pelos dedos de uma mão. O que Hugo caçou, viu e registou durante a sua vida africana, corresponde a um milhão de anos em relação às novas gerações de caçadores profissionais que, devido às circunstâncias, nem em sonhos poderão aproximar-se da sua experiência, vendo-se obrigados a praticar uma nova actividade cinegética, na qual rareia a pureza do acto de caça e sobeja o “Plastic Safari” desenhado à medida de clientes pouco brilhantes, que não percebem que alguém lhes está a “fincar” os dentes nos seus livros de cheques.
Para Hugo, que é um “gentleman hunter”, como o são todos os caçadores da velha escola, o objectivo principal do acto de caça é desfrutar livremente da vida no ambiente selvagem africano e caçar com regras e ética, protegendo simultaneamente os animais que caça com os seus conselhos e experiências vividas.
Com os seus inigualáveis conhecimentos sobre a caça africana, Hugo tem a obrigação moral de deixar escritos sobre as suas experiências em Angola e noutros países africanos, para que as novas gerações de caçadores saibam o que foi a caça, na verdadeira acepção da palavra, o que foi a pureza e o que foi o esplendor do passado que desapareceu para sempre.
Com o afecto de sempre e um forte abraço,
Tony

“Tony Sanchez-Ariño
13 de Junio 2008, dia de San António
Valência (ESPAÑA) ”

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mariajoaomarques
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MensagemAssunto: Re: CAÇADOR == HUGO SEIA ==   Qui Ago 28, 2008 5:24 pm

Mundjamba” é uma palavra africana cujo significado poderá suscitar alguma dúvida, mesmo àqueles que dominam o dialecto Umbundo, razão por que consultei diversas fontes que me inspiram confiança, concluindo que se trata da junção de duas palavras - munda que significa montanha e jamba, que significa elefante – tendo sido a alcunha com que gentes da minha Terra me distinguiram, cujo significado fará, com certeza, mais sentido na sua cultura do que na nossa.
Numa primeira fase, a que chamo o “primeiro tempo”, partilho com o leitor o tempo em que brinquei em terras do Zombo, nas margens do Rio Zaire ou Congo, nas florestas de chuva do Uíge, partilho o tempo que calcorreei as chanas do Bié, a minha adolescência em Benguela, os meus primeiros elefantes e a alcunha “Mundjamba”, a passagem pelo Quadro Administrativo de Angola, o meu primeiro leão e a “guerra” contra a DIAMANG que destruiu a minha carreira no funcionalismo público.
Numa segunda fase, o meu “segundo tempo”, partilho com o leitor a minha carreira de caçador, a saída atribulada da minha Terra, a experiência do Sudão e da República Centro-Africana, a tenebrosa história da Namib Safaris, o regresso a Angola e a curta estadia na Cova do Lobo, a minha vida profissional e as experiências com gente boa e as experiências com gente má, e tudo o mais que contribuiu para a minha história Africana.
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mariajoaomarques
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MensagemAssunto: Re: CAÇADOR == HUGO SEIA ==   Qui Ago 28, 2008 5:36 pm


DE MENINO A HOMEM


Quem nasceu e se criou em Angola terá, obviamente, recordações muito idênticas às que povoam a minha memória, relacionadas com o país em si, embora a vida não permitisse que todos seguissem o mesmo caminho. Para todos, porém, Angola foi um paraíso que ofereceu aos seus filhos uma beleza natural sem igual, uma vivência única em ambiente sadio e, seguramente, o mais completo paraíso existente na Terra.
Infelizmente, porém, os últimos cinquenta anos, tão poucos no contexto do tempo, foram suficientes para o homem destruir parte da beleza natural Africana, e Angola sofreu a sua quota-parte de destruição, permitindo a tragédia que vitimou a fauna, permitindo o desastre que transformou florestas em campos queimados, ao mesmo tempo que, à semelhança do que aconteceu noutros países, se fomentaram ódios, se armaram povos e se incitou a guerra entre eles, aumentando o sofrimento de gente que em nada contribuiu para o estado deplorável em que os seus países hoje se encontram.
Hoje restam as reminiscências do passado, com sinais evidentes de uma decadência que, afortunadamente, em alguns países está agora a ser combatida, numa tentativa de lhes ser devolvida a imagem que antes ostentavam com orgulho e eu espero, como Angolano do coração, que a minha Terra se recupere dos muitos castigos que sofreu.
Foi obviamente numa África diferente daquela que hoje existe que eu nasci, onde me fiz homem e onde aprendi a respeitar a natureza, num ambiente saudável, mesmo se me referir às cidades e vilas que, apesar de todas as dificuldades e limitações da época, não deixavam de ser lugares aprazíveis, onde se trabalhava em paz e com alegria. É evidente que todos quantos nasceram em Angola terão tido meninices e adolescências idênticas à minha, na liberdade que generosamente a Terra oferecia aos seus filhos, alguns com experiências fantásticas após se terem tornado adultos, provavelmente mais interessantes das que eu vivi, apenas com a diferença de que fui um dos poucos que me dediquei à caça grossa, numa primeira fase como amador e, numa segunda, na qualidade de profissional, o que me permitiu viver situações de alguma forma únicas.
É evidente que não fui apenas caçador e a história da minha vida relatará necessariamente factos relacionados com outra profissão que exerci e recordará episódios que protagonizei, embora sejam as narrativas cinegéticas aquelas que mais nitidamente estão gravadas na minha memória e aquelas que, em noites serenas, junto a uma qualquer fogueira, me fazem sonhar acordado.
A paixão pela caça, mais exactamente pela caça grossa, circula-me nas veias desde que recordo a minha existência e, ao longo dos anos, acumulando experiências invulgares, foi tendo maior influência em tudo quanto fez parte da minha vida, enriquecendo-se com as centenas de experiências que vivi na carreira profissional que abracei.
Caçar, porém, é um verbo que tem, para mim, um significado bem mais complexo do que aquele que qualquer dicionário me pode facultar. Caçar exige ética e bom senso e exige a capacidade de provocar a morte sofrendo simultaneamente por ela. Abater animais sem incluir o coração nos lances de caça e fazê-lo sem qualquer controlo, abusando dos meios que a inteligência e a técnica permitem, abater animais sem sentir a morte que deliberadamente é provocada, está longe de ter o mesmo significado. Para mim, sem qualquer dúvida, essas práticas significam matar e não caçar. Não desconheço quão difícil é explicar este sentimento a quem não nasceu com a caça no coração, mas sei, com uma certeza absoluta, que o verdadeiro caçador compreenderá os meus sentimentos.
A minha história é, pois, uma mais das que referem vivências africanas. Nela recordo a minha meninice em terras de Angola, a juventude até deixar os estudos liceais e enveredar pela carreira do funcionalismo público, os acontecimentos que me levaram a abandonar o estatuto de funcionário público e a transferir-me para o mundo da caça profissional, a saída precipitada da minha Terra, as dificuldades que experimentei nos países africanos onde trabalhei e, finalmente, o tempo em que, com base em Portugal, saltei de país em país do imenso Continente Negro, guiando safaris, numa actividade que continua activa até aos dias de hoje.
Nasci no ano de 1942, no Norte de Angola, mais exactamente em Maquela do Zombo. Filho de funcionário público, andei de terra em terra enquanto deixava de ser menino e caminhava para a adolescência. Vivi os primeiros anos da minha infância no luxurioso norte do meu país, crescendo na liberdade que apenas África podia então oferecer, longe das limitações que o mundo civilizado já no passado impunha às suas crianças, e fui viver a adolescência no sul, continuando a gozar da mesma liberdade que Angola não negava a quem privilegiadamente nela vivia.
Meus pais não eram naturais de Angola, mas ambos haviam chegado à então colónia portuguesa com sete e cinco anos de idade, respectivamente, nela se fizeram adultos, nela constituíram família e a ela deram praticamente toda a sua vida. Minha mãe criou-se em Luanda, capital Angolana, e meu pai em Sá da Bandeira. Casaram-se em Luanda e meu pai ingressou nos Serviços de Fazenda (Finanças), sendo depois transferido para Moçâmedes. Seguiu-se Maquela do Zombo, Santo António do Zaire, Uíge, Silva Porto e, finalmente, a fantástica cidade de São Filipe de Benguela.
Nada ocupa a minha memória que não seja relacionado com África, com a minha Terra, com os animais selvagens e com a caça. Outros homens haverá que, criados em ambientes bem diferentes e em mundos civilizados, terão tido uma meninice e uma adolescência diferente, para quem o meu mundo teria sido uma maçada e um aborrecimento, mas hoje, muitos anos passados desde que deixei de ser criança e adolescente, é com convicção que afirmo que fui privilegiado por ter nascido num ponto quase esquecido do mapa de Angola, e por me ter feito homem em contacto muito directo com a Natureza.
Quando volto ao meu passado mais distante, penso como teria sido enfadonha a minha infância se tivesse crescido sem a liberdade que experimentei, sem a minha tchifuta, sem a tchikuanga comida à sombra da mangueira no tempo em que as mangas estavam verdes e faziam dores de barriga, sem as caçadas de fim-de-semana de meu pai em que eu participava sempre que podia, sem o visgo que tirava da mulemba para apanhar cardeais, sem o banho no rio atento ao jacaré e sem a pressão de ar que sempre me acompanhou. Como teria sido triste, enfim, não ter aprendido a guiar a Fargo, nas picadas e a corta-mato, e não ter tido como presente uma pequena espingarda 9 m/m quando ainda era uma criança, com a qual abati o meu primeiro golungo e pergunto o que teria sido da minha infância se um dia não desejasse ser chefe de posto quando fosse grande, unicamente porque chefe de posto era sinónimo de mato e mato sinónimo de caça, pergunto :

...continua
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MensagemAssunto: Re: CAÇADOR == HUGO SEIA ==   Sab Ago 30, 2008 6:32 pm

continuação...


o que teria sido da minha infância sem a moamba e o kalulu comidos à sombra da grande mulemba, sem a kitaba e sem o pé de moleque, sem os maboques e as nochas das matas e sem os lohengos e os lomuinos das anharas.
Da infância vivida nas terras verdes e luxuriosas do norte de Angola, passei à adolescência que decorreu nos territórios do sul. Que privilegiado fui de novo por ter ido às “Terras do Fim do Mundo” quando tinha apenas quinze anos, como recordo a minha excitação quando vi os primeiros elefantes, quando vi o primeiro leão, quando deixei Munongue a caminho do Caiundo, orgulhosamente manobrando uma carrinha Ford, como um dia vira o Pinto fazer em terras do Uíge. Como recordo os contínuos fins-de-semana com o meu pai, nos arredores de Silva Porto, caçando em anharas e matas do Bié, como recordo, enfim, a minha primeira “onça” na curva da picada!
Do Bié passei para Benguela, onde vivi os anos que mais marcaram a minha vida. Ali estudei, cacei, perdi o meu pai e melhor amigo, fiz-me homem, e casei com a melhor mulher e melhor amiga que a vida me poderia ter dado. Em Benguela deixei os estudos e fui chefe de posto, realizando o sonho da minha meninice e é de Benguela que guardo o melhor de uma adolescência livre e sã, recheada de lembranças que a tornaram única, que verdadeiramente lamento não serem as mesmas que ocupam as recordações das minhas filhas que, involuntariamente, se fizeram mulheres num país que não era o delas, sob a influência de uma cultura que não era a que lhes estava por direito reservada.
Na qualidade de chefe de posto, o mais jovem do meu tempo, uma vez mais fui um privilegiado. A minha carreira administrativa começou no Distrito de Benguela. O meu primeiro Posto Administrativo foi o Mamué onde, na realidade, me iniciei como caçador de elefantes, pela mão do Alberto. Foram três anos a calcorrear a imensa área semidesértica e as florestas de mutiati, vividos única e exclusivamente a caçar, onde a burocracia administrativa era praticamente inexistente. Quando fui transferido para o Distrito da Lunda, no leste de Angola, já era responsável pelo abate de mais de cento e cinquenta elefantes, entre eles o célebre “Buluve”, que terá lugar de honra neste meu pequeno trabalho.
Na Lunda, terra dos diamantes, vivi outros três anos, que também foram decisivos na minha vida. Ali voltei a empregar a maior parte do meu tempo ao exercício da caça. Vi e abati a primeira tchia, o primeiro bambi gigante, o primeiro otchisóvio, o primeiro hipopótamo e o primeiro grande crocodilo. No Sombo, o primeiro Posto Administrativo onde fui colocado, abati os primeiros leões da minha vida e os primeiros búfalos equinociais que nem sabia existirem na minha Terra. No meu segundo posto, o Luia, continuei a fazer o que na realidade me interessava, caçando toda a fronteira de Angola com o Zaire, até às terras do Moxico.
Da Lunda saí castigado, não pelos meus superiores hierárquicos mais directos, mas pelo Governo de Angola. Castigado por ter tido a audácia de usar a minha autoridade contra a intocável DIAMANG – Companhia de Diamantes de Angola. Por decisão, porém, do Director dos Serviços de Administração Civil, Dr. Amaral Lopes, que corajosamente contrariou ordens superiores do Secretário-Geral, Senhor Governo Montês, fui transferido de novo para o Distrito de Benguela, onde persistia a falta de voluntários para ocupar o isolado Posto do Mamué. Regressei assim ao meu paraíso e aos meus elefantes.
Após dois anos no Mamué e de curta passagem pelos Postos Administrativos da Catumbela e da Canata, fui convidado para ocupar o Posto do Caiundo, no Distrito do Kuando-Cubango, onde terminei os meus dias de carreira administrativa e, também, onde acabei o meu “curso” de caçador de elefantes. Ali abati muitos, muitos mais do que devia, embora a maioria fosse por razões de força maior, cumprindo ordens superiores que visavam a protecção das populações locais e seus bens.
De chefe de posto passei a caçador profissional da Angola Safaris, concessionária da conhecida e famosa Coutada do Mucusso, onde trabalhei até 1975, ano em que, aconselhado pelo saudoso Amuxila kamber, um dos melhores e mais completos pisteiros que me ajudaram ao longo da minha carreira de caçador, abandonei o acampamento de Calonga para garantir a segurança da minha família e a minha própria, numa noite que jamais esquecerei. Em autêntica aventura nocturna, um longo corta-mato levou-me à margem do Rio Cubango mas, antes de conseguir “saltar” a fronteira, fui interceptado por uma patrulha militar da UNITA, acabando detido. Essa fuga precipitada da minha Terra foi o início dos dias mais difíceis da minha vida. Depois do tempo passado na povoação do Mucusso e da estadia num campo de refugiados na Namíbia, uma viagem aérea levou-me até Lisboa, onde apenas estive uma semana, tempo suficiente para ali deixar a minha mulher e filhas entregues a familiares e para partir com os meus colegas, entre eles o que fora proprietário da Angola Safaris, com destino ao Sudão, país desconhecido e misterioso mas ao mesmo tempo o destino de esperança para quem acabara de perder a Pátria.
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MensagemAssunto: Re: CAÇADOR == HUGO SEIA ==   Seg Set 29, 2008 5:36 pm

.." NA CONTINUAÇÃO DO QUE ME PROPUZ FAZER SOBRE OS ESCRITOS DO HUGO SEIA, LÓGICO QUE VOU SELECIONAR O QUE É O CONTEXTO DSTE FIO...CAÇADAS."






MAQUELA DO ZOMBO E SANTO ANTÓNIO DO ZAIRE

Sobre a primeira parte da minha infância, vivida em Maquela do Zombo e Santo António do Zaire, pouco recordo. O que hoje guardo, julgo serem reminiscências de histórias contadas pelos meus pais, no tempo em que não existia televisão e, por essa razão, sobrava tempo para os pais contarem histórias e para os filhos as ouvirem deliciados.
Na minha memória, já fragilizada pelo tempo, recordo vagamente, por exemplo, algumas das brincadeiras em casa dos Berardi, o casal idoso Italiano a quem eu chamava avós, cujo grande quintal estava superlotado de plantas e aves de capoeira e onde, em dia de pouca sorte para o animal atingido, de uma enorme jaqueira caiu um pesado fruto que matou um suíno que já era mais porco do que leitão.
Entre as histórias de Maquela, contudo, a que ouvi de meus pais e melhor recordo, está relacionada com a minha primeira aventura com animais, em que tive como ama-seca uma fêmea chimpanzé.
Meu padrinho de baptismo, Sousa Santos, era oficial do exército, vivia só ou, melhor, com uma companheira pouco usual, uma simpática chimpanzé que dava pelo nome de Chica e que deixava perplexo quem a conhecia, com procedimentos mais próprios de um ser humano do que de um primata.
Nos velhos tempos de Angola, luz eléctrica era mordomia que não existia nas povoações do interior e Maquela do Zombo não passava disso mesmo: de uma povoação do interior! Durante um serão, depois do jantar, enquanto meus pais e amigos jogavam cartas em casa de meu padrinho, à luz de ruidoso petromax, eu dormia no meu berço, colocado num sofá, na penumbra da sala mal iluminada.
Repentinamente, no facho de luz concentrado na mesa de jogo, surgiu a chimpanzé, carregando-me ao colo, tal como ama-seca dedicada e exibindo-me para quem me quisesse ver, ante o olhar de surpresa de todos e, imagino, de pavor de minha mãe.
Meu padrinho recomendou calma e silêncio a todos e, num tom natural de voz, sem tirar os olhos das cartas, falou carinhosamente com a Chica, aconselhando-a a voltar a pôr-me no berço porque eu era um bebé e tinha que dormir. A Chimpanzé, parecendo compreender perfeitamente o raciocínio de meu padrinho, voltou ao sofá e, com extremo cuidado, deitou-me sem que eu acordasse durante o passeio que havia dado.
A Chica fazia outras habilidades, diria mesmo que fazia muitas traquinices que a tornaram famosa. Meu padrinho, na qualidade de oficial do exército, tinha em casa um impedido que, entre outras tarefas, colocava na parte superior do aparador – então com portas protegidas por rede mosquiteira – um copo de leite para o “meu aspirante” beber antes de se deitar.
Uma noite, o copo estava vazio sobre a mesa, com restos de leite. É evidente que o pobre impedido apanhou uma descompostura, mas como o problema se repetiu na noite seguinte, meu padrinho, que já conhecia bem a Chica, resolveu fazer-lhe uma espera para esclarecer o enigma. Embora tivesse a certeza de que se tratava de mais uma tropelia do chimpanzé, tinha curiosidade de saber como ela a levava a cabo. Foi assim que a viu surgir do escuro, puxar uma cadeira da mesa para alcançar a base do aparador, abrir a fechadura da porta do compartimento onde estava o copo, beber o seu conteúdo, fechar a porta, descer e arrumar a cadeira, deixando o copo vazio na mesa, como vira o dono fazer vezes sem conta.
Outra ocasião, meu padrinho deu um jantar em casa, convidando pessoas que ocupavam cargos importantes na terra, entre eles o novo médico. A sopa foi servida – caldo verde – e alguém teve a infeliz ideia de dar um pedaço de pão à Chica, que ela chupou até o transformar numa massa peganhenta. Entretanto, apoiada nas travessas das cadeiras onde meu padrinho e o médico se sentavam e agarrada com uma mão ao ombro do dono, aproveitou o entusiasmo com que o médico falava à senhora sentada a seu lado e foi “mergulhando” o bocado de pão no caldo verde, chupando-o de seguida, repetindo a operação vezes seguidas até que, finalmente, foi descoberta e fechada num quarto… de castigo.
Da Chica é ainda a história da pasta de dentes. Meu padrinho notou que, de um momento para o outro, a sua pasta de dentes desaparecia a olhos vistos. Intrigado, chegou a pensar que se tratava de um abuso do seu impedido – pobre homem – mas depressa concluiu que era mais uma travessura da Chica. Efectivamente, quando apanhava a casa sem alguém que a pudesse controlar, pegava na escova de dentes do dono, colocava nela enorme quantidade de pasta e… lavava os seus próprios dentes.
O Miguel era o homem de confiança dos meus pais que fazia tudo, desde cozinhar, tratar da casa e… cuidar de mim como se tratasse de seu filho. Miguel tinha um filho, a quem dera o seu nome, sensivelmente da minha idade, que foi o meu primeiro amiguinho e companheiro de muitas traquinices. Miguel e eu brincávamos sem parar no quintal da nossa casa térrea, estilo colonial, com pouca roupa ou mesmo nenhuma e contaram-me que um dia nos surpreenderam a chupar baratas. Poderão as baratas não serem consideradas iguaria para o nosso gosto ocidental, mas ninguém poderá afirmar que os orientais têm mau gosto gastronómico.
Assim fui criado, em liberdade e com muita alegria, sem que tenha sofrido doença grave, para além das mazelas próprias de todas as crianças, apesar de comer baratas e muitas outras porcarias, apesar de me ter criado rodeado de animais que dizem pegar doenças às criancinhas modernas, de andar todo o dia sebento, até que a noite chegava e me metiam numa banheira, na companhia do meu companheiro de folia, para uma barrela completa.
Uma transferência de meu pai levou-nos para Santo António do Zaire, a linda vila que nasceu entre as margens do Rio Zaire ou Congo e do pântano Tari-Tari.


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mariajoaomarques
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MensagemAssunto: Re: CAÇADOR == HUGO SEIA ==   Qui Out 30, 2008 7:43 pm

De Santo António do Zaire lembro-me da abundância de crocodilos e hipopótamos, tantos que durante a noite atravessavam a povoação, por entre o casario, do rio para o pântano e vice-versa, deixando rastos bem visíveis no vasto areal, e lembro-me dos meus pais darem amiúde “uma volta”, depois do jantar, o que significava procurarem crocodilos à noite. Na ausência de outras actividades, enquanto minha mãe focava os répteis com uma lanterna de cabeça alimentada por cinco baterias, meu pai abatia crocodilos, usando para o efeito uma velha 6,5 mm Mannlicher.
Coisas de outros tempos e de outras mentalidades!
Também recordo o grande crocodilo que meu pai alvejou, dentro da “piscina” da povoação – um cercado construído com troncos, que pretendia isolar um espaço de rio e impedir um possível ataque de crocodilo – onde várias vezes foram avistados sáurios de diversos tamanhos. Depois do tiro, o grande crocodilo desapareceu nas águas escuras do rio e foi necessária a colaboração de um par de pescadores locais, em piroga rudimentar, para o localizarem no fundo, com a ajuda de uma vara, puxando-o depois para a praia fluvial. O monstro serviu de atracção à população, desejosa de ver e fotografar um crocodilo de seis metros, mas aconteceu que, duas horas depois e após dezenas de fotos, o lagarto gigante se levantou e, em segundos, desapareceu nas águas do rio para nunca mais ser visto.
São de Santo António do Zaire as histórias que ouvi sobre o famoso caçador que foi Limatão e a forma como perdeu a vida esmagado por um elefante, as lendas da Pedra do Feitiço, que ninguém visitara sem perder a vida, e de tantas outras que fizeram parte da minha meninice.
Muito pequeno mas já com alguma imaginação, foi ainda em Santo António do Zaire, durante uma conversa em minha casa sobre “cavalos-marinhos”, designação que era então comum para os hipopótamos, que convencido e peremptório disse a minha mãe que, na realidade, havia muitos cavalos no rio, tantos que até tinha visto um sair da água com carroça e tudo!
Cedo provei a veracidade do ditado que diz: “Caçador e pescador…”!
É evidente que também recordo o majestoso Rio Zaire, que os habitantes de Santo António atravessavam em “gasolinas” para fazerem compras do “outro lado”. “Gasolinas” eram lanchas a motor pertencentes à Alfândega e o “outro lado” tratava-se de Boma, em território Zairense, onde a população de Santo António ia amiúde comprar artigos que não chegavam às vilas do interior, como chocolate vendido a metro, bom whisky, vinho razoável e outros.

UÍGE
De Santo António do Zaire, meu pai foi transferido para o Uíge, onde a minha vida se iniciou, na verdadeira acepção da palavra. Foi ali que comecei a minha caminhada africana, foi ali que me fiz gente e é de lá que guardo episódios dos quais fui protagonista e não apenas ouvinte atento. Foi ali que tive os primeiros contactos com a escola primária, foi ali que tive a primeira “namoradinha” e foi ali que me iniciei na caça, assistindo excitado às caçadas de meu pai.
Para além de funcionário público, meu pai era um caçador aficionado, incapaz de utilizar os fins-de-semana ou feriados noutra actividade que não fosse a da caça, o que influenciou a minha paixão pela natureza, pelos animais selvagens e, naturalmente, por tudo quanto estivesse relacionado com a prática cinegética.
Na escola primária aprendi o abecedário e a fazer contas com os coleguinhas, quer com o filho do governador, quer com o filho do cozinheiro que trabalhava em nossa casa. Poderia ter crescido com o desejo de seguir as pisadas de meu pai, ou ser advogado, ou médico, ou ainda engenheiro, mas desde criança manifestei o desejo de viver longe dos homens e perto dos bichos.
Quando me perguntavam o que queria ser ou fazer quando fosse grande, a resposta era dada prontamente, sem grandes reflexões: queria ser “chefe de posto”, apenas e só porque os chefes de posto viviam no mato, longe da civilização, e podiam caçar sempre e quando o desejassem.
O meu grande entusiasmo estava ligado às caçadas de fim de-semana de meu pai. Desde muito cedo acompanhava-o na sua actividade cinegética e falhar uma caçada apenas acontecia quando estava doente ou quando diabruras mais atrevidas eram motivo de punição. De outra forma, aninhado na cabine da Fargo, vibrava quando meu pai abatia uma peça de caça, durante os dias quentes e as frias noites, ao som do poderoso motor da carrinha e embalado pelos solavancos impostos pelo piso irregular das picadas.
Cresci sem as mordomias das boas casas, sem o encantamento das festas, sem cinemas, mas hoje, mais do que antes, sinto que fui um privilegiado por não ter sido “castigado” a viver no mundo de cimento que serviu de cenário à maioria dos meninos do meu tempo, por ter sido poupado do bulício das grandes urbes e da frieza das sociedades que se atropelam e por me terem permitido uma adolescência em contacto com a natureza. Sinto um enorme orgulho por ter nascido naquele ponto esquecido do mapa de Angola, por ter sido considerado um menino do mato, por ter aprendido a guiar a carrinha Fargo, nas picadas e a corta-mato, por ter recebido, como presente, uma pequena espingarda 9 m/m quando era ainda uma criança e por ter abatido o meu primeiro golungo


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